domingo, 1 de maio de 2011

Sabedoria e Inteligência

      Passei o domingo debruçada em livros sobre o tema educação, filosofia, psicologia. Quase no final da noite encontrei nas leituras uma historinha interessante e boa para refletirmos um pouco sobre a questão da sabedoria e inteligência. Confesso que terminei a leitura com muitas questões em aberto. Aliás, na vida é assim mesmo, vamos construindo o saber,sempre é tempo de aprender. A reflexão deve fazer parte essencial daqueles que estão abertos ao conhecimento. Penso que não existem verdades absolutas,permanentes e o ato de pensar,refletir e agir possibilita interpretar a realidade por meio do conhecimento disponível em um momento. E o aprender também é válido a partir de experiências do outro. Então, a partir da experiência do autor do texto abaixo, fazendo uma leitura reflexiva e sem preconceitos, posso me abrir ao novo que me espera ou simplesmente me fechar em um conceito pré estabelecido e perder a oportunidade de novas interpretações da vida, de perder um processo dinâmico e criativo que é a aprendizagem .  Para aqueles que se interessam por educação e assuntos correlatos deixo essa história interessante para iniciar a semana com um bom tema de reflexão.

Tropeções da Inteligência

" Há a história de dois ursos que caíram numa armadilha e foram levados para um circo. Um deles, com certeza mais inteligente que o outro, aprendeu logo a se equilibrar na bola e a andar no monociclo, o seu retrato começou a aparecer em cartazes e todo mundo batia palmas : " como é inteligente". O outro, burro, ficava amuado num canto, e, por mais que o treinador fizesse promessas e ameaças, não dava sinais de entender. Chamaram o psicólogo do circo e o diagnóstico veio rápido : " é inútil insistir, o QI é muito baixo..."


Urso inteligente



Urso burro

Ficou abandonado num canto, sem retratos e sem aplausos, urso burro, sem serventia....o tempo passou. Veio a crise econômica e o circo foi à falência. Concluíram que a coisa mais caridosa que se poderia fazer aos animais era devolvê-los às florestas de onde haviam sido tirados. E, assim, os dois ursos fizeram a longa viagem de volta.
Estranho que em meio a viagem o urso tido por burro parece ter acordado da letargia, como se ele estivesse reconhecendo lugares velhos, odores familiares, enquanto seu amigo de QI alto brincava tristemente com a bola, último presente. Finalmente, chegaram e foram soltos. O urso burro sorriu, com aquele sorriso que os ursos entendem, deu um urro de prazer e abraçou aquele mundo lindo de que nunca se esquecera.


Urso burro sorrindo feliz


O urso inteligente subiu na sua bola e começou o número que sabia tão bem. Era só o que sabia fazer. Foi então que ele entendeu, em meio às memórias de gritos de crianças, cheiro de pipoca, música de banda, saltos de trapezistas e peixes mortos servidos na boca, que há uma inteligência que é boa para circo. O problema é que ela não serve para viver. Para exibir sua inteligência ele tivera de se esquecer de muitas coisas. E este esquecimento seria sua morte. E podemos nos perguntar se o desenvolvimento da inteligência não se dá, sempre, às custas de coisas que devem ser esquecidas, abandonadas, deixadas atrás...

Esta história tomou forma na minha cabeça quando li uma notícia no jornal. Conta as desventuras de um astronauta que se ralou todo, morro abaixo, na tentativa de escalar uma montanha. Sempre pensava em astronautas como seres especiais, peneirados por meio de testes do maior rigor, daqueles que investigam o fundo das células e o fundo da alma, de sorte que os poucos que resistem só podem ser os de físico mais apto e de inteligência mais aguda.


Astronauta inteligente


Lendo um pouco mais da notícia, fiquei sabendo que as desventuras do astronauta se deviam ao fato de que, não contente por haver voado do outro lado da lua, resolvera fazer viagem ao passado. E era exatamente isto que estava fazendo: escalando o monte Ararat que, segundo os relatos bíblicos, foi o lugar onde pousou a Arca de Noé. Tudo era simples para sua inteligência que aprendera muito e, para isto, tivera que esquecer. Esquecera-se que mapas de astronomia não podem ser colados aos mapas da mitologia, porque os mapas da astronomia se referem aos espaços de fora, enquanto os mapas da mitologia se referem aos espaços de dentro, espaços de um passado que a imaginação transformou em horizonte. Daí o fim triste da expedição, escorregão, quem sabe, num detrito fossilizado de elefante...é. Há uma inteligência boa para circo, mas que não é boa para outras coisas.

Claro que o urso teve de se esquecer de tudo o mais para aprender a andar na bola : concentração, disciplina, coordenação motora. Coisa semelhante às exigências da especialização. Para nos especializarmos em algo, tirar nota máxima, ganhar aplausos, retratos nos cartazes e até Prêmio Nobel, é necessária aquela intensidade de concentração que nos obriga a esquecer o resto. E não existe nada de basicamente errado com isto. É graças a esta disciplina que temos pianistas, poetas, cirurgiões e mecânicos. O problema está na confusão que fazemos entre andar na bola e inteligência. Mas aí há sempre alguma coisa que foi esquecida. Coisa, da qual, talvez, dependa a nossa vida e a nossa morte. Uma sociedade de especialistas é uma sociedade que se esqueceu de que, para sobreviver, não basta andar na bola...

Os antigos usavam a palavra sapiência. Sapiência quer dizer conhecimento que tem sabor. Ainda hoje dizemos : " Isto sabe bem." Saber é sentir o sabor. Mas sabor é aquilo que se encontra às portas do corpo, prestes a ser engolido. O que importa aqui não é a "performance" extraordinária, coisa de circo, mas uma capacidade para avaliar se a coisa é boa para a vida ou não. Para se construir uma bomba atômica é preciso ser muito inteligente. Para tomar a decisão de se desmontar todas elas é necessário ser sábio. A solução do problema do crescimento econômico exige inteligência. A opção por um estilo de vida diferente precisa de muita sabedoria. Como os dois ursos nos ensinaram, um com um sorriso alegre e outro com um sorriso amargo, a sabedoria , com frequência, mora do outro lado da inteligência."


Coruja e  a simbologia da sabedoria


Neurônios do cérebro humano.





Ser humano e natureza



Rubem Alves em "Estórias de quem gosta de ensinar" - editora Cortez.
Coleção Polêmicas do Nosso Tempo.

As imagens são de domínimo público retiradas da internet.

4 comentários:

  1. putz, miriam, este texto faz a gente pensar mesmo!! boa semana pra ti!

    ResponderExcluir
  2. Maninha:
    Eu sempre tive prevenção à super especialização.
    Acredito que todos têm talento ou interesse por diversos campos de atividade. Mas, sem dúvida, para se atingir a excelência em alguma atividade é necessário dedicação profunda e constante. Na Bíblia ( não sei em que Livro) há um preceito que diz: " Não se pode servir bem a dois Senhores". Talvez seja verdade, talvez não.
    O ponto do texto do Rubem Alves me parece ser a tendência ao alheamento a que uma super especialização pode levar. A ânsia pela excelência e a necessária constante atualização de conhecimentos em seu campo de atuação costuma, sim, desabilitar alguém para outros aspectos da vida.
    É um texto a se pensar.
    Bj.

    ResponderExcluir
  3. Mano,
    também não sou contrária aos estudos e as especializações. Mas essas ideias são interessantes sempre para nos lembrarem em não nos afastarmos do equilíbrio. O caminho do meio,para que não nos esquecermos que a vida pode ser muito mais que especializações...e não desprezarmos o simples e a sabedoria que às vezes está presente em uma pessoa sem grandes estudos. Pensar sempre é bom. Beijos da irmã distante,quase no exílio...

    ResponderExcluir