" Ensinar o que não se sabe"
"...E chega o momento quando o Mestre toma o discípulo pela mão, e o leva até o alto da montanha. Atrás, na direção do nascente, se veem vales, caminhos, florestas, riachos, planícies ermas, aldeias e cidades. Tudo brilha sob a luz clara do sol que acaba de surgir no horizonte. E o Mestre fala :
Por todos esses caminhos já andamos. Ensinei-lhe aquilo que sei. Já não há surpresas. Nesses cenários conhecidos moram os homens. Também eles foram meus discípulos! Dei-lhes o meu saber e eles aprenderam as minhas lições. Constroem casas, abrem estradas, plantam campos, geram filhos...Vivem a boa vida cotidiana, com suas alegrias e tristezas. Veja esses mapas!
Com essas palavras ele toma rolos de papel que trazia e abre diante do discípulo.
Aqui se encontra o retrato deste mundo. Se você prestar atenção, verá que há mapas das terras, verá que há mapas dos céus, mapas do corpo, mapas da alma. Andei por estes cenários. Naveguei, pensei, aprendi. Aquilo que aprendi e sei está aqui. E estes mapas eu lhe dou, como minha herança. Com eles você poderá andar por estes cenários sem medo e sem sustos, pisando sempre em terra firme. Dou-lhe o meu saber.
Aí o Mestre fica silencioso, olhando dentro dos olhos do discípulo. Ele quer adivinhar o que se esconde naquele olhar. Examina os seus pés. Nos pés sólidos se revela a vocação para andar pelas trilhas conhecidas.Quem sabe isso é tudo aquilo de que aquele corpo jovem é capaz! Quem sabe isso é tudo o que aquele corpo jovem deseja! Se assim for, talvez que o melhor seria encerrar aqui a lição e nada mais dizer.
Mas o Mestre não se contém e procura, nas costas do seu discípulo, prenúncios de asas _ asas que ele imaginara haver visto como sonho, dentro dos seus olhos. O Mestre sabe que todos os homens são seres alados por nascimento, e que só esquecem da vocação pelas alturas quando enfeitiçados pelo conhecimento das coisas já sabidas.
Ensinou o que sabia. Agora chegou o tempo de ensinar o que não sabe : o desconhecido.
Volta-se então na direção oposta, o mar imenso e escuro, onde a luz do sol ainda não chegou.
É este o seu destino
Os poetas o tem sabido desde sempre:
A solidez da terra
monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão do
grande mar,
multiplicadas em suas malhas
de perigo.
(Cecília Meireles)
Mas para essa aventura meus mapas não lhe bastam. Todos os diplomas são inúteis. E inútil todo o saber aprendido. Você terá de navegar dispondo de uma coisa apenas : os seus sonhos. Os sonhos são os mapas dos navegantes que procuram novos mundos. Na busca dos seus sonhos você terá de construir um novo saber, que eu mesmo não sei....E os seus pensamentos terão de ser outros, diferentes daqueles que você agora tem.
O seu saber é um pássaro engaiolado, que pula de poleiro em poleiro, e que você leva para onde quer. Mas dos sonhos saem pássaros selvagens, que nenhuma educação pode domesticar.
Meu saber o ensinou a andar por caminhos sólidos. Indiquei-lhe as pedras firmes, onde você poderá colocar os seus pés, sem medo. Mas o que fazer quando se tem de caminhar por um rio saltando de pedra em pedra, cada pedra uma incógnita? Ah! Como é diferente o corpo movido pelo sonho, do corpo movido pelas certezas...
Até agora eu o ensinei a marchar. É isto que se ensina nas escolas. Caminhar com passos firmes. Não saltar nunca sobre o vazio. Nada dizer que não esteja construído sobre sólidos fundamentos. Mas, com o aprendizado do rigor, você desaprendeu o fascínio do ousar. E até desaprendeu a arte de falar. Na Idade Média(e como a criticamos!) os pensadores só se atreviam a falar se solidamente apoiados nas autoridades. Continuamos a fazer o mesmo, embora os textos sagrados sejam outros. Também as escolas e universidades
têm os seus papas, seus dogmas, suas ortodoxias. O segredo do sucesso da carreira acadêmica? Jogar bem o boca-de-forno, aprender a fazer tudo o que seu mestre mandar....
Agora o que desejo é que você aprenda a dançar. Lição de Zaratustra, que dizia que para se aprender a pensar é preciso primeiro aprender a dançar.Quem dança com as ideias descobre que pensar é alegria. Se pensar lhe dá tristeza é porque só se sabe marchar, como soldados em ordem unida. Saltar sobre o vazio, pular de pico em pico, não ter medo da queda. Foi assim que se construiu a ciência: não pela prudência dos que marcham, mas pela ousadia dos que sonham. Todo conhecimento começa com o sonho. O conhecimento nada mais é do que a aventura pelo mar desconhecido, em busca da terra sonhada. Mas sonhar é coisa que não se ensina. Brota das profundezas do corpo, como a água brota das profundezas da
terra. Como Mestre só posso então lhe dizer uma coisa : Conte-me seus sonhos, para que sonhemos juntos!"
(Trecho do livro "A Alegria de Ensinar" de Rubem Alves)
Seguidamente eu transcrevo aqui as palavras de Rubem Alves. É um encantamento que acontece toda vez que leio seus livros. Como se tudo aquilo que ali está escrito é o que passa também pelas minhas ideias, pensamentos e emoções. Uma empatia de sentimentos. Tive uma feliz oportunidade de ouvi-lo falar em um congresso de educação. Fiquei como criança que ouve histórias, sentada com os olhos vidrados e os ouvidos atentos nas palavras daquele senhor de cabelos brancos e sorriso fácil e franco.
Como professora eu me encontro diariamente com situações parecidas com o texto acima. Vontade de dar asas para meus alunos. Ou melhor, cuidar para não cortar-lhes as pequeninas e frágeis asas...
São tão pequenos ainda para aprenderem a marchar...não é isto que desejo ensinar-lhes...
Prefiro os contos de fadas, as danças de roda, as cantigas, as brincadeiras livres de tantas regras. Mas sei o quanto os pais e a própria instituição escola quer, que eles aprendam logo a marchar....
E então vou procurando ensinar aquilo que desejam que eu ensine mas não posso me permitir deixar de sonhar junto com eles! E como é bom se arriscar saltar no vazio com eles! Como é gratificante olhar para aqueles rostinhos felizes e admirados com as descobertas quando estamos na praça brincando e lá encontramos um passarinho que caiu do galho, um "filhote" de pinha (como eles costumam chamar),uma lagarta em alguma folha, o avião que passa pelo céu azul e deixa seu rastro de" fumaça" branca, uma joaninha linda e vermelhinha que pousa no cabelo do colega.... e tantas outras descobertas e novidades!
Mas eu vou escolhendo caminhos para caminharmos juntos. Caminhos que eles possam percorrer com alegria, com os olhos iluminados de admiração pelo mundo e que possam sempre lembrar desse começo de vida escolar com um bom sentimento. Fico feliz se contribuir para a felicidade deles. Ficarei feliz se não acabar com os sonhos deles...
Escolho então caminhos onde podemos sonhar juntos!
" O nascimento do pensamento é igual ao nascimento de uma criança : tudo começa com um ato de amor. Uma semente há de ser depositada no ventre vazio. E a semente do pensamento é o sonho. Por isso os educadores, antes de serem especialistas em ferramentas do saber, deveriam ser especialistas em amor : intérpretes de sonhos. " ( Rubem Alves)


Maninha:
ResponderExcluirSeria mesmo uma dádiva se todos os envolvidos na educação das crianças se posicionassem assim!
Continue em sua generosa labuta!
Querido irmão, eu tinha apenas meus 16 anos quando descobri que era na Educação que eu poderia contribuir de alguma maneira para a felicidade das pessoas e consequentemente para um mundo mais feliz. Apesar das dificuldades continuo acreditando neste sonho...
ResponderExcluirPraticamente viajei junto aqui! rs
ResponderExcluirOi Careli!!! Obrigada por suas visitas por aqui.
ResponderExcluirTudo de bom prá você! Abraço.
Um abraço daqui, de longe e de perto, gostei de ler / ver o seu blog!
ResponderExcluirObrigada Yvette! Abraço também para você!
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