sábado, 13 de agosto de 2011

Quatro personagens Uruguai adentro.....

" Pequeno herói participante
do concerto selvagem da tua vida,
apartaram-me um dia da querência....
que me fizeram lembrar de ti,
que estavas longe...
que me fizeram me lembrar de mim,
que já fui outro(a)...."



Pampa, campo, emas, céu infinito...

"Recuerdo de si" , é um ditado uruguaio que faz referência  às lembranças unicamente nossas, esquecendo do passado e de outras lidas vividas. Mas este ditado torna-se um pouco difícil de ser vivido quando escolhe-se
ter a experiência de adentrar o Uruguai. Uma viagem pelo Uruguai é um convite a  recordar, mesmo não tendo vivido essas experiências pampeanas. Sente-se na pele, nos poros, esse espírito gaucho que é tão forte e visível na imensidão," um sentimento de solidão na imensidade deserta do pampa."

"De lá para cá, 24 anos se passaram pelos pampas, no lombo de minuanos e esperanças; de pampeiros e luas sem fronteiras, abrindo estradas novas "..... uma vida completamente estranha para mim. Um aprendizado que precisei ter para me adaptar à essa cultura tão diferente e distante.
O frio extremo, o insistente e gelado vento minuano, a imensa distância de minha terra natal, um horizonte verde, quase um deserto verde, onde as ondulações das coxilhas muito longe estão do horizonte azul e movimentado a que meus olhos estavam acostumados a apreciar nos mares do Atlântico.
E me aventuro então, em companhia de minha filha Sofia e de Edson, que tem sido meu companheiro em muitas viagens por lindos e novos lugares, e mais o seu filho Tui, que pela primeira vez faria uma viagem por outro país. Vamos todos "experimentar"o Uruguai. Quatro personagens vivenciando a pampa uruguaia. Os largos horizontes, cada um com seu jeito próprio e particular de admirar esta paisagem. Percebendo e sentindo cada qual a sua maneira experimentando a imensidão que se descortinava aos nossos olhos. Trazendo sentimentos particulares e diversos em cada um de nós.

Pampa uruguaia

" Tudo é só céu e horizonte
em imenso campo verde!
Infeliz de quem se perde
ou que seu rumo extravia!"

" Todo es cielo y horizonte
en inmenso campo verde!
Pobre de aquel que se pierde
o que su rumbo estravea!"


Nasceu em 10 de novembro de 1834, na Chacra de Pueyrredón, na província de Buenos Aires, o jornalista e poeta José Hernandéz. Para falar da pampa e do espírito gaúcho nada melhor do que conhecer o poema épico Martin Fierro deste   poeta consagrado que se tornou um clássico da literatura hispano-americana.
O poema canta a independência, o estoicismo e a coragem dos gaúchos.
Ele versa sobre a " llamada edad de oro del gaucho, la pampa sin alambrados ni fronteras en la que se podia galopar a voluntad, bolear avestruces y potros, enlazar y desjarretar ganado cimarrón y alzado, vivir con absoluta libertad y mudar pago aún teniendo que pelear cada tanto com los índios."
(www.elfolkloreargentino.com)

Para compreendermos um pouco desse espírito do gaucho, que independente de ser brasileiro,uruguaio ou argentino, que vive esta particularidade de paisagem e com ela se confunde : "...sempre fora um espelho dos seus pagos, conhecidos por ele, desde criança, passada a passada de cavalo. Entre a sua pessoa e as coisas e os seres circunstantes havia uma parecença que ía do físico ao moral. Apesar da linha de destaques das coxilhas, impondo ao vivo os perfis, e do traço inconfundível de cada qual nos descampados, o gaúcho e a campanha se confundem numa semelhança impressionante, de figuras e de plano."
" Todo o que la pampa encierra e va filtrando lentamente en su espíritu, hasta identificarse con él."

E assim fomos nós quatro entrando pelo  Uruguai . Um tanto de monotonia para nós, brasileiros, acostumados com um Brasil de relevos variados e muita diversidade nas paisagens. Mas nos propusemos a conhecer um pouco dessa cultura diferente da nossa. Nosso primeiro destino era a cidade de Tacuarembó. Mas específicamente no Valle Eden, onde havíamos encontrado informações na internet de uma pousada. Chegamos no local, Pousada Valle Eden ( www.posadavalleeden.com.uy). Lugar muito simpático e aprazível. Local também onde se encontra o Museu Carlos Gardel; o criador do Tango argentino na realidade nasceu no interior do Uruguai, no Departamento de Tacuarembó.

Tui  na  calçada  do Museu Carlos Gardel.

Ficamos dois dias nesta localidade. Fizemos uma linda caminhada, pelo menos no meu ponto de vista, em busca de uma cachoeira anunciada mas não tivemos a sorte de encontrar. Fato que chateou bastante Tui e Sofia pois como não estão acostumados a longas caminhadas e ainda mais em um lugar com uma paisagem sem muitos atrativos, acabou sendo motivo para desânimos....
Para compensar esta experiência frustrante para os dois combinamos de no dia seguinte dar um pulo na cidade de Tacuarembó. Ver um pouco de urbanidade e alegrar os adolescentes!
Já Edson e eu tivemos um outro olhar por esta caminhada mesmo sem encontrar a tal cachoeira. Tivemos a oportunidade de sentir e pensar um pouco mais sobre o que é o Uruguai e esse espírito do gaúcho.
Além do que nós dois gostamos muito de caminhar pela natureza.

" ...e disposta andava a gente...
Estendendo o olhar em frente
só céu e o gado se achava."

"....y andaba la gente lista....
Tendiendo al campo la vista,
solo vía sino hacienda y cielo."

Minha intenção era visitar dois museus na cidade de Tacuarembó. Museu do Índio e Museu de Paleontologia. Pensei que este programa fosse alegrar Sofia e Tui. Acredito que sim mas não tivemos sorte e os dois museus estavam fechados! Fiquei bem frustrada e chateada....paciência. Pelo menos o lanche que fizemos na praça da cidade e as compras de supermercado alegraram os dois....
Dia seguinte seguimos viagem para outro destino. Queríamos chegar na serra Mahoma, que na internet nos pareceu um belo e diferente lugar para conhecer. Inclusive uma paisagem diferenciada dos pampas.
Rodamos por muitos e muitos quilômetros, apenas campos, gado e poucas cidadezinhas. Paramos para almoçar em Trinta y Tres Orientales, no Clube 25 de agosto. Seguimos mais pelas vazias e monótonas estradas uruguaias. E nada de conseguir encontrar referência, placas ou informações da serra Mahoma.
Acabamos desistindo. A noite se aproximava e preferimos procurar um lugar para dormir. Pernoitamos na cidade de San José.
Acomodados e cansados resolvemos desistir de seguir no dia seguinte de procurar a serra Mahoma. De manhã fomos conhecer duas cidades : Nueva Helvécia, de colonização Suíça, e Colônia del Sacramento, a cidade mais antiga do Uruguai, do ano de 1680. Belíssima cidade histórica! Vale a pena atravessar todo o Uruguai, enfrentar suas estradas de retas infnitas, os desertos verdes, a paisagem monótona do pampa com sua enorme população de gado para no finalzinho do Uruguai pisar em suas últimas pedrinhas do seu território e caminhar pelas ruas charmosas e que tantas histórias possui Colônia Del Sacramento.

Linda e pitoresca Colônia Del Sacramento com seu farol.

Farol zelando, como no passado, a iluminar caminhos no Mar Del Plata.
O tempo passa porém a zelar ele permanece...
Que nada o impeça de histórias contar.
Todos devem saber,
Que aqui  onde termina o Uruguai
Também começou uma história há 331 anos atrás!
Terminará onde começa....

O Farol.

Sofia e Tui passeando por terras finais de Colônia Del Sacramento.

Dessa viagem muito pude aproveitar. Conhecer novas culturas amplia nossos horizontes, principalmente em se tratando do Uruguai pois o que mais podemos avistar são horizontes! Ter a sensibilidade para perceber outras nuances e modos de vida. Que nós, com toda a nossa diversidade, sejamos humildes para apreciar as belezas que em todo o lugar existe. É uma questão de educar o olhar e saber buscar as coisas boas das ocasiões e dos lugares. Compreender um povo diferente de nós.
Aproveitei a oportunidade para refletir sobre essa alma gaudéria, o espírito gaucho que tanto orgulha esses povos e os une.Afinal eu vivo há 24 anos rodeada de gaúchos e gaúchas, meus filhos nasceram na fronteira do Brasil com o Uruguai, e mesmo eu sendo "estrangeira" nesta terra, devo me esforçar para compreendê-la.

"Sento na relva de um baixo,
a cantar um argumento;
como se soprasse o vento,
faço tiritar os pastos:
...jogo alí meu pensamento."

" Sou gaúcho! - Entendam bem
como meu canto o explica:
a terra ante mim se achica
e pudera ser maior;
nem a víbora me pica,
nem me queima a fronte o sol."

"Minha glória é ser tão livre
como é livre o passarinho;
nunca farei o meu ninho,
onde há tanto que sofrer,
e, quando o meu voo erguer,
eu hei de erguê-lo sozinho."

E assim o espírito gaúcho permeou os dias pelo Uruguai.
Um poquito apenas mais entendida de Uruguai.
Voltei com alegrias no coração de tão agradável quarteto que se formou.
Contente de férias  tão diferentes!


A olhar o  Mar Del Plata  em busca da história passada....

Mãe e filha nos muros da cidade mais antiga do Uruguai.
Colônia Del Sacramento, onde termina e onde começa o Uruguai.
O início e o fim, do meu ponto de vista e interpretação.





7 comentários:

  1. Mais uma bela e tocante postagem!
    Bj., Henrique.

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  2. Irmão querido, que tal voltar aos pagos?
    Sentir novamente o minuano soprando em seus cabelos?
    Beijos!

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  3. Gostei muito do post Miriam. Principalmente porquê conheço esta pequena e linda cidade!
    Se não fosse pelo calor absurdo, moraria lá...rs

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  4. Oi Paulo! Pois é, esse extremo sul é assim mesmo...extremos calorões e frios extremos!!! Tudo na extremidade!!!Hehehehehe!!!!

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  5. Olá Miriam! Pouco conheço dos pampas (ou la pampa, como diriam nuestros hermanos), mas o Martin Fierro ilustra muito bem a vida dos gauchos (gaúchos para nós). Excelente postagem!

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  6. É uma experiência diferente vivenciar um pouco dos pagos dos gauchos.
    As visitas e os comentários de todos que por aqui passam são incentivos para continuar escrevendo.
    Obrigada.

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