quinta-feira, 22 de março de 2012

Amanhecer em Caçapava do Sul - Capítulo 2

                                       " O que será ser só
                                         Quando outro dia amanheceu?
                                         Será recomeçar?
                                         Será ser livre sem querer?"
                                                              ( Chico Buarque)


Paisagem amanhecendo na janela do meu quarto na casinha.

Dormi que foi uma beleza!
Também pudera, com um silêncio precioso e o cansaço que eu estava.....
Amanheci como na minha infância....leve, despreocupada , com um sorriso no rosto.
Acordei bem cedinho ao som da cantoria do galo e outras aves que não identifiquei o canto.
Ao abrir a janela do quarto, bem pertinho da cama, vejo uma bela manhã despertando entre os galhos das árvores.
Faço ainda uma preguicinha de uns minutinhos na cama macia enquanto aprecio o despertar da vida ao meu redor.
Uma família de uma ave desconhecida para mim está bem pertinho da janela do quarto. São cinco ao todo.
Dois maiores e três outros menores. Saio para fotografá-las e elas se apressam em voar para os galhos de uma árvore próxima.

Jacú nos galhos da árvore.

Depois fiquei sabendo pelo Seu Manoel que essas aves eram uma família de Jacús. O casal e seus três filhotes. Muito prazer! Não conhecia nem o canto deles e nunca havia visto um Jacú.

" Deixei uma ave me amanhecer..." ( Manoel de Barros)

Fui fazer o meu desjejum embaixo das árvores e apreciar a linda manhã fresquinha que prometia um dia de muitas caminhadas.
Enquanto me alimentava pensei qual caminhos escolher para aquele dia tão ensolarado.
Bem à minha frente um morro simpático me convidava para explorar seu cume que abrigava uma linda árvore solitária, e que pelo seu formato me parecia ser uma árvore típica, nativa da região. A Anacauíta.
Eu não havia subido ali da outra vez que aqui estive, pensei. Então decidi que começaria por ali as minhas caminhadas.

Terminei o desjejum, calcei minhas botas, peguei a máquina fotográfica, avisei Dona Amantina para que lado eu estava indo e a que horas voltaria para o almoço, por volta do meio dia.
Como eu iria caminhar sozinha acho prudente avisar por onde estou indo e que previsão de retorno.

Facinha e rápida a subida do morro. Ao chegar lá em cima eu pude confirmar que realmente a árvore solitária no cume é uma Anacauíta. Exploro um pouco as paisagens que posso avistar lá de cima. Fotografo algumas paisagens e ângulos novos. Aproveito  sentada embaixo da sombra fresca da única árvore para pensar sobre estar ali naquela região novamente. Sozinha e tendo a oportunidade de experimentar esses caminhos com as minhas impressões, pensamentos e atenção.
Cuidar por onde andar e como andar. Prestar atenção para que a minha viagem continue sendo de prazer e felicidade em companhia de tão belas paisagens e apenas  a minha companhia.

Vista do alto do morro olhando para o Galpão de Pedra


No cume, a solitária Anacauíta que me acolheu com sua sombra

Me demorei um bom tempo lá em cima.
Depois caminhei pela redondeza olhando detalhes, fotografando, procurando um lugar diferente para descer e chegar na trilha para a Pedra do Leão. Fiquei atraída por uma descida, bem íngreme, de pedra e seus conglomerados. Comecei a descer mas percebi depois de já ter descido alguns metros que o final era extremamente íngreme e lá embaixo um matagal que caía direto em um riacho. Sem chance, eu pensei.
Não vim aqui para me machucar e ser imprudente.
Tive então que voltar me agarrando bem firme nas pedrinhas e escolher o caminho convencional da trilha para chegar na Pedra do Leão.

Trilha para a Pedra do Leão

Por estes caminhos eu já havia caminhado. Trilha fácil e bem marcada.
Mas desta vez fui devagarinho. Apreciando detalhes.
Parando sempre que dava vontade.
Admirar uma flor, teia de aranha, árvores.
Devagar para relembrar.....
Reviver emoções.
Entrar em caminhos laterais e descobrir algo novo.
Retornar para a trilha e se sentir feliz de estar ali.

Cheguei onde eu queria. A base da via Silêncio dos Inocentes.
Uma linda via que termina em uma imponente caverna!
Caminhei pela base, fotografei.


Me deito na pedra e ao olhar aquele céu profundamente azul  recordei de uma brincadeira que eu fazia quando criança. Acho que todas as pessoas já fizeram isso pelo menos uma vez na vida!
Imaginar formas nas poucas nuvens que passavam por cima de mim.
Esta brincadeira é muito divertida, além de exercitar a imaginação e criatividade!
Uma paz me acompanha.

Neste momento eu lembro de palavras da personagem de um filme :
" Querida eu mesma,
continue,
só você pode se ajudar,
ajude-me a ser eu mesma,
ajude-me a acreditar,
a sonhar e a me encontar...."

As poucas nuvens que brincaram com minha imaginação

Ficaria muitas horas caminhando por aquele lugar.
Por muito tempo brincaria com as nuvens do céu.
O dia estava perfeito! A luminosidade maravilhosa e eu muito contente de estar ali.
Mas não queria preocupar Dona Amantina e Seu Manoel então começo a voltar para chegar na hora combinada de meu retorno.

O que se pode avistar da via da Vó Tita.

Voltei para a hora do almoço.
Novamente sento em companhia das árvores para me alimentar.
A pequena e linda Maria Eduarda fica curiosa e vem perguntar por que vou comer ali.
- Para a comida ficar mais feliz Duda! respondo.
-Ah! Eu não sabia que comida ficava feliz!!! diz a Duda com carinha de dúvida....

E ainda ganho de sobremesa lindos, coloridos e saborosos caquis do pomar do Galpão de Pedra....hummm... impossível não ficar feliz assim!



E a tarde promete muitas caminhadas....
Enquanto saboreio meu almoço recordo trechos  de um lindo poema. Transcrevo  aqui esse belo poema que voltou algumas vezes em minha memória durante esses dias de caminhadas reflexivas em Caçapava do Sul.

                      CUÉNTAME

Mi vida se fué
en tu vida
en un espacio
que no hay

No te quedes
en el tiempo
búscame
en este silencio

Que esta vida
es un desierto
cuando no estás

Despues buscamos al viento
que nos trajo a este lugar
y le contamos despacio
si se quiere quedar

Volvé a sembrar la canción
y que la noche nos nombre
en los duendes dormidos
que quitan la desilusión

Déjame contarte la vida que aprendi
aprendiendo a esperar

Ruedame por tu cintura
y un sueño largo despertará
Como plegaria de un fuego eterno
De un sueño corto de realidad

Cuéntame
que está lloviendo en la inmensidad
Cuéntame
que está floreciendo la verdad .
********

Um convite para apreciar uma bela música :

http://www.youtube.com/watch?v=h0ccxAfKRwY&feature=related




2 comentários:

  1. tão bom te ler!! tu és muitooo delicada, mimi!!

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    1. Bea, amiga do coração,e você é gentil! Sabia que lembrei de sua coragem e desprendimento várias vezes lá em Caçapava?

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