terça-feira, 26 de agosto de 2014

Lua Nova



Na antiguidade as campanhas de guerra eram suspensas durante o inverno.
O inverno era, por excelência, a estação pacífica....
A neve cai em silêncio, enchendo os buracos, nivelando as asperezas das coisas. A silenciosa nevada é como um manto de brancura, nivelação, alisamento...
É como a alma da criança e do ancião, silenciosas e lisas. Os grandes silêncios da alma do ancião. E a brancura alisante de uma e de outra!

 
 
Miguel de Unamuno
 
O Drummond escreveu um poema chamado "Ausência". Não sei o propósito de quê - se era por causa de um amor perdido, de uma pessoa querida que estava longe - a saudade doía. E ele escreveu para se explicar e consolar:
 
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegante nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
 
É isto: a cena - presente diante dos meus olhos - faz acordar uma ausência na minha alma. Daí a tristeza mansa. Essa ausência tem nome de saudade. Eu não tenho saudade. É a saudade que me tem.
Mas o que eu quero, mesmo, é fazer como o Drummond: aconchegar minha saudade nos meus braços. Porque saudade é um estar em mim. Assim, por favor, não tentem me consolar.

Leia  bem devagar o próximo texto. Contemple. Leia bovinamente, como quem rumina...

Todos os dias atravessamos a mesma rua ou o mesmo jardim; todas as tardes nossos olhos batem no mesmo muro avermelhado feito de tijolos e tempo urbano. De repente, num dia qualquer, a rua dá para um outro mundo, o jardim acaba de nascer, o muro fatigado se cobre de signos. Nunca os tínhamos visto e agora ficamos espantados por eles serem assim: tanto e tão esmagadoramente reais. Não, isso que estamos vendo pela primeira vez, já havíamos visto antes. Em algum lugar, onde nunca estivemos, já estavam o muro, a rua, o jardim. E à surpresa segue-se a nostalgia. Parece que recordamos e quereríamos voltar para lá, para esse lugar onde as coisas são sempre assim, banhadas por uma luz antiquíssima e ao mesmo tempo acabada de nascer. Nós também somos de lá. Um sopro nos golpeia a fronte. Estamos encantados... Adivinhamos que somos de outro mundo.

Otavio Paz está descrevendo uma experiência mística: quando, de repente, as coisas banais do cotidiano se abrem como portas, e somos levados a um outro mundo. Pode ser um perfume indefinível, pode ser uma fotografia que já vimos vezes sem conta, pode ser uma música vinda de longe...
De repente experimentamos êxtase - estamos fora de nós mesmos, encantados - somos transportados para um mundo que nem sabemos direito o que seja. Já estivemos lá. Não mais estamos. E vem a nostalgia. Quereríamos voltar. A alma sempre deseja voltar. O mundo das novidades é o mundo do seu exílio.

E hoje minha alma tem nostalgia de quase tudo que já vivi. Hoje os caminhos estão encantados e sou transportada para um mundo que nem sei ao certo se existe.
Lembrar o mar me dá ausência de mar.
O mar e seu mistério indecifrável. O mar nos fascina.
Sabia disso a Cecília, que nasceu olhando o mar, assim como eu.

A solidez da terra , monótona,
parece-nos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.
Queremos sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana
que se opõe ao mesquinho formigar do mundo.

Sobra a imensidão do mar; sobra a imensidão das praias; sobram o azul, o branco, o verde; sobra o brilho do sol da tarde refletido na água espraiada na areia; sobra o silêncio das vozes dos homens; sobra o céu estrelado; sobram os coqueirais; sobra a sensação de se estar em paz com a vida.
Há quanto tempo o mar se quebra alisando a areia? O mar, a praia, as conchas, o céu, os peixes invisíveis nas profundezas, as gaivotas em voo, me falam da eternidade. Sinto-me retornando ao início do mundo. Foi desde sempre o mar...
Até as marcas dos pés, coisas do tempo, haviam sido apagadas pelo vento e pelas ondas.
Solidão.



Meus sentimentos fugiram do texto, e tudo o que eu havia escrito me pareceu tolo e sem sentido. Escrevo para muitos anônimos, cujos rostos eu nunca vi. De repente os muitos desapareceram da minha frente, e o seu era o único rosto que eu via. Queria estar ao seu lado, segurar sua mão. Mas você está longe. "Há que se cuidar da vida..." , pensei. Ela tem de continuar, pois continua a ser bela.

O meu olhar é nítido como um girassol.
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo.

Alberto Caeiro

https://www.youtube.com/watch?v=ea2WoUtbzuw


Trechos e fragmentos dos livros de Rubem Alves :
"O Amor que Acende a Lua" e
"Se Eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente..."

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