sábado, 1 de novembro de 2014

Como estrelas na Terra

Começo esta reflexão com poesia:

" Como é belo o deserto. O que torna belo o deserto é que nele existe um poço....em algum lugar. O essencial é invisível para os olhos."

Cresci escutando uma profunda verdade nessas palavras. A ponto delas ajudarem a determinar minha profissão: professora.
Nessa minha caminhada profissional, desde os meus 18 anos (agora estou com 53), o que eu tenho como missão é me conectar ao belo de cada criança ou adolescente que estão sob minha responsabilidade. E rezo a cada dia que nunca essas fontes de águas frescas que cada ser tem dentro de si, nunca venham a secar.

E como posso eu contribuir para isso? Tenho a certeza de que a primeira atitude é de respeito. Sim, respeito ao ser humano que irá participar juntamente comigo desse processo educacional. Vamos juntos construir e descobrir conhecimentos e mais do que isto, ampliar horizontes e vislumbrar oportunidades e possibilidades de vida.
Como um abrir de portas e janelas onde novos ventos e luz  poderão circular e arejar os pensamentos e iluminar os corações.

Respeito pela história de vida de cada aluno. Pelas experiências de vida de cada indivíduo que ali se encontra.
Estar atenta às suas falas e suas verdades. Permitir que os alunos tenham liberdade de expressão e aprendam a respeitar as opiniões e as diferenças individuais de cada colega e professor.

Trazer-lhes o mundo. E deixar que eles tragam o mundo deles para a escola.
Estar na escola para mim significa muito. Significa minha vida, pois foi esta escolha que fiz. Uma escolha   para participar e colaborar com as mudanças necessárias para a construção de um país com cidadãos livres e responsáveis por seu crescimento e desenvolvimento humano.

Participar ativamente na escola é um projeto de vida.
Onde eu me realizo como profissional e como um ser que possui um sentido amplo de pertencimento.
Pertencer a uma comunidade que me ajuda a crescer como pessoa e eu, em contrapartida, ajudo aos outros a pertencerem também a um grupo que lhes confere significado à vida.
O ser humano necessita viver em sociedade. É um ser social por natureza. E nas partilhas e na convivência é  que nos fazemos humanos.
Muitas vezes sinto falta de compartilhar, trocar ideias e emoções.
Me faz lembrar novamente Saint-Exupéry : " A gente se sente um pouco sozinho no deserto.....entre os homens também."

Cito muito o aspecto humanista em meus relatos e também tenho esta forte influência  na minha prática pedagógica.
Entre alguns pensadores que me influenciaram estão : Platão, Rousseau, Friedrich Sshiller, Rudolf Steiner, Carl Sagan, Carl Jung, Gandhi, Freinet, Gardner, Montessori, Edgar Morin, Piaget, Hanna Arendt e Viggotsck, entre outros.

Não desprezo, é claro, as tecnologias e as Ciências. Até porque a Pedagogia é uma Ciência.
Mas vou exemplificar um pouco mais os meus sentimentos com um trecho do livro de Saint-Exupéry, Terra dos Homens- editora Saraiva, que recentemente li :

“ O uso de um instrumento sábio não fez de você um técnico seco. Sempre me pareceu que as pessoas que se horrorizam muito com nossos progressos técnicos confundem o fim com o meio."

*Na verdade, quem luta apenas na esperança de bens materiais não colhe nada que valha a pena viver.
Mas a máquina não é um fim. O avião não é um fim : é um instrumento; um instrumento como a charrua.

Se às vezes julgamos que a máquina domina o homem é talvez porque ainda não temos perspectiva bastante para julgar os efeitos de transformações tão rápidas como essas que sofremos!
E conclui:

"Que são os cem anos da história da máquina em face dos duzentos mil anos da história do homem? “

Então, por detrás da máquina, estão as pessoas. Essas é que importam. Elas é que são o centro principal da ação. Se estivermos preparando com humanidade, igualdade, fraternidade e amorosidade, os nossos alunos, também eles saberão conduzir com equilíbrio todo esse processo de desenvolvimento científico e tecnológico que a humanidade está vivenciando.
Um ser humano equilibrado e harmonioso certamente fará bom uso das tecnologias e nunca se deixará “secar” por dentro!

“ Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque nos oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer; superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramentas. Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos da natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.
Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de voo, na Argentina – uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.
Cada uma dessas luzes marcava no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa
alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda.

Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos.
É preciso a gente tentar se unir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.”

(Saint-Exupéry, Terra dos Homens, editora Saraiva; 2014)

E eu, tento me comunicar. Sei que muitas e muitas vezes não serei ouvida e talvez até não saiba escutar.
Mas ainda assim eu sigo acreditando que valha a pena seguir com este sonho.
Saudades dos meus alunos. Faz tempo que não vejo o brilho dos seus olhos ou ouço o som de seus sorrisos que alegram os meus dias de trabalho.

" Aquele que vigia modestamente algumas ovelhas sob as estrelas, se tem consciência do seu papel, descobre que não é apenas um servidor. É uma sentinela. E cada sentinela é responsável por todo o império." Saint-Exupéry.

* Trecho do prólogo do jornalista Armando Nogueira para o livro Terra dos Homens de Saint-Exupéry.

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