Hoje és uma paisagem pendurada na parede da sala.
Posso ainda reviver a emoção de me sentar nos bancos do calçadão da praia e admirar assim a sua beleza, como tantas vezes fiz.
Nos dias do sudoeste eu corria para presenciar a mudança de cores na paisagem.
O encrespar das ondas no mar acinzentado, a pressa das nuvens no céu.
O vento forte em meus cabelos que dançavam em minha cabeça e minha pele sentindo aquele frio tão bom que me arrepiava toda. Eu buscava por sensações, por emoções. Jovenzinha e com muita curiosidade de mundo; extremamente conectada com os elementos da natureza.
Todos os dias eu vejo essa paisagem que voluntariamente um dia eu me despedi.
Com ela ficaram muitos amores para trás. Muito de mim também ficou.
Vamos trocando as "cascas", nos descobrindo, num processo de descobertas e co-criação.
Foi alí que eu descobri o meu 1º amor. Depois a vida me levou para aprender com outras paisagens, ter novas experiências. Outros amores vieram e se foram.
Agora, nesse momento, olho para ela como por uma janela; e lá estão muitas histórias vividas nessa paisagem. Me vejo alí como criança que fui, jovem, adulta e almejando novas jornadas e outras estradas por percorrer.
Hoje, depois de muitas "cascas" trocadas, de algumas experiências de vida, me encontro sozinha. As memórias são muitas e me ajudam a seguir com aquela vivacidade e curiosidade de mundo que faz parte da minha essência. E no final de mais um ano a gente segue acreditando que muitas coisas boas e lindas estão por vir.
Depois de muito tempo longe deste Blog, sirvo-me da Mitologia para regar esta pequena reflexão de final de ano. Às vezes me sinto um pouco Clio.
" Clio, uma musa da História, não por acaso era filha de Mnesósine, a Memória. Partilhando com sua mãe, mais do que outras musas, suas irmãs, esta capacidade de representar uma ausência, de escutar o silêncio e de tornar próximo o distante.
Ora, a História e a Memória são, ambas, formas de evocação, de presentificação e de uma apresentação de uma realidade escoada no tempo. Por outro lado, Clio, como musa, é dotada desta capacidade mágica de dar realidade àquilo que conta. Como musa da História, sua narrativa ocupa o lugar daquilo que um dia existiu.
O tempo de seu discurso não é nem o passado nem o presente, mas um terceiro tempo, o tempo da história que desde o presente, ocupa o lugar do passado. Chegando mesmo a se passar por ele."
( Texto em aspas de autoria de Sandra Jathahy)
O quadro na foto é de autoria do meu pai, Gilberto Emílio Chaudon.
Técnica: Óleo sobre tela.

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