" Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque oferece resistência. Ao se medir com um obstáculo o homem aprende a se conhecer; para superá-lo, entretanto, ele precisa de ferramenta.Uma plaina, uma charrua. O camponês, em sua labuta, vai arrancando lentamente alguns segredos da natureza; e a verdade que ele obtém é universal. Assim o avião, ferramenta das linhas aéreas, envolve o homem em todos os velhos problemas.
Trago sempre nos olhos a imagem de minha primeira noite de voo, na Argentina - uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície.
Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda. Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe em longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o dos carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos....
É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um esforço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura."
Onde mais posso encontrar tamanha riqueza? Os livros são um tesouro a ser descoberto. Neles vivem adormecidos sentimentos que serão despertados ao serem lidos. Vivo em todos os livros que leio. E essa herança foi a mãe e o pai que plantaram em meu coração. As palavras faladas nem sempre são tão férteis como as palavras escritas. Um mundo de sensibilidades se descortina entre as páginas de um livro. As palavras me "encantaram" desde muito pequena. Mamãe soprou areia brilhante em meus olhos e semeou belas palavras em meu coração. E desde então eu fiquei "encantada" ou melhor dizendo, enfeitiçada.
As antigas lembranças me acariciam e o coração pulando dentro do peito me confirma o quão significativas elas são em minha vida.
" Se procuro entre as minhas lembranças as que me deixaram um gosto durável, se faço o balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna do mundo ter-me-ia presenteado." E se eu nada possuísse, a não ser as minhas recordações, esse seria o meu tesouro.
"Minhas invisíveis riquezas."
Esses dias alguns acontecimentos se entrelaçaram em minha vida : a chegada de minha irmã à minha casa, as nossas lembranças de infância sobre o Pequeno Príncipe, que se tornou em nossas vidas muito mais do que um simples personagem de livro; uma fotografia do deserto; o meu livro, " Terra dos Homens", que voltou para casa depois de longos 4 anos distante da minha estante; e a fotografia de minha mãe em nossa casa, que meu irmão me enviou. Esta mesma que ilustra esse texto.
" A terra, assim, é ao mesmo tempo deserta e rica. Rica desses jardins secretos, escondidos, difíceis de atingir. A vida nos separa talvez dos companheiros.... Eles estão em algum lugar, não se sabe bem onde, silenciosos....Mas pouco a pouco descobrimos que não ouviremos nunca mais o riso claro daquele companheiro; descobrimos que aquele jardim está fechado para sempre. Então começa nosso verdadeiro luto, que não é desesperado".....
.....mas muito triste.
Quem, entre vocês diria tantas palavras belas e verdadeiras sobre esse sentimento da perda? Onde encontraria tamanha afinidade? Os livros me salvam. Assim como a natureza eles são minha companhia. As histórias que neles leio são as conversas que não tenho. São os carinhos, a atenção, a companhia perdida.
O mais maravilhoso, porém, é que tenho essa consciência que me faz feliz.
" Quando despertei vi apenas a bacia do céu noturno, porque eu me havia estirado sobre um monte, os braços em cruz, o rosto voltado para aquele aquário de estrelas. Sem compreender ainda o que via, sem saber em que profundeza mergulhava meus olhos, fui presa de uma vertigem, sem uma raiz a que me agarrar, sem um teto, um ramo de árvore entre mim e aquela profundeza, solto, largado na queda como um mergulhador. Mas não caí. Da cabeça aos pés, estava ligado à terra. Sentia uma espécie de apaziguamento, abandonando-lhe o meu peso. A força da gravidade me aparecia, de repente, soberana como o amor.
Não sei o que se passa em mim. Esta força de gravidade me liga ao chão quando tantas estrelas são imantadas. Uma outra força de gravidade me prende a mim mesmo. Sinto o meu peso que me une a tantas coisas! Meus sonhos são mais reais que estas dunas, esta lua, estas presenças. O que há de maravilhoso numa casa não é que ela nos abrigue e nos conforte, nem que tenha paredes. É que deponha em nós, lentamente, tantas provisões de doçura. Que forme, no fundo de nosso coração, essa nascente obscura de onde correm, como água da fonte, os sonhos...."
Não são minhas essas palavras mas poderiam ter sido escritas por mim. É assim com os livros e suas histórias, suas poesias. Essa conectividade que nos faz refletir como imagem de um espelho o que ali podemos ler e viver em pensamentos e sentimentos. E essa riqueza foi presente de minha mãe e do meu pai.
Sempre com um bom e belo livro nas mãos, a luz do abajur na sala iluminando discretamente seu corpo, no toca-disco provavelmente Mozart ou Chopin trazia ao ambiente uma atmosfera perfeita para acender uma chama em meu coração e iluminar minhas ideias de criança.
" Às vezes, no silêncio da noite, todas as saudades lhe vinham, com a plenitude de uma cantiga de infância..... ninguém escapa, na solidão, a esses regressos."
E no meio da noite ela chorou.... "cheia de velhas ternuras misteriosamente ressuscitadas."
" O que se transmitia assim, de geração em geração, com o lento progresso de uma árvore que vai crescendo, era a vida, mas também a consciência. Que misteriosa ascensão! De uma lava em fusão, de uma lama de astro, de uma célula viva germinada por milagre, nós saímos e pouco a pouco nos elevamos até escrever poemas e pesar as vias-lácteas.
A mãe não havia transmitido somente a vida: havia ensinado uma linguagem a seus filhos, havia-lhes confiado a bagagem tão lentamente acumulada no correr dos séculos, o patrimônio espiritual que ela mesma recebera em herança, o pequeno grupo de tradições, de conceitos, de mitos.
..... o que então sentimos é que a gênese não terminou e que precisamos tomar consciência de nós mesmos e do universo."
E assim a madrugada vai clareando, trazendo seus raios ainda pálidos, o sol entra pela minha janela.
Com os olhos ainda úmidos as lembranças vão dando espaço para a realidade presente. Outra vez posso enxergar a vida. Alguns milagres não devem ser contados. Apenas sentidos e guardados em um lugar de preciosidades particulares.
Em mim habitam muitos sentimentos e todos os amores compõem minha existência.
Quem seria eu sem vocês?
*Trechos entre aspas do livro Terra dos Homens de Saint Exupéry.
A fotografia retrata eu e minha mãe em nossa casa na cidade de Niterói, RJ.
Obrigada, irmão Henrique Augusto, por me presentear com esta imagem.
Hoje faz 1 mês que nasci de novo.
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