domingo, 8 de setembro de 2019
Movimentos Migratórios
Filha Trânsfuga.
Ouvi há muitos anos da minha mãe esse adjetivo.
Assim como ela, eu também migrei.
Assim como os pássaros o fazem.
O significado da palavra trânsfuga me soava muito forte, como se eu estivesse desertando.
Fiquei por alguns anos procurando compreender o motivo de minha mãe falar isto se na verdade ela mesma havia migrado do Rio Grande do Sul, (onde só retornou para visitar a família), para o Rio de Janeiro. Nesta nova cidade, onde escolheu fixar residência, ela encontrou o amor, meu pai, e lá fizeram uma nova família.
Mas minha mãe não estava totalmente enganada quando me chamou de trânsfuga...
Mas de algum modo eu desertei por sobrevivência.
Como os pássaros que vão em busca de melhores temperaturas, por alimentação, direção dos ventos.
Enfim, em busca de sobrevivência, preservação da espécie.
Assim como os pássaros eu migrei em busca de melhores condições de vida. Uma cidade menos violenta, a tranquilidade para oferecer uma infância feliz aos meus filhos, ar e água pura.
Difícil compreender tudo o que acontece em nossa vida, todos os nossos movimentos. Alguns parecem puro instinto, outros intuição e talvez alguns poucos sejam resultado de planejamento.
Desertei para que os meus sonhos sobrevivessem.
Assim, os poetas são um pouco profetas. "Os poetas em realidade fingem não conhecer o que já sabem..." ( Cesare Pavese )
Muitos de nós precisamos um dia sair, desertar, migrar...
Esse meu lado "poeta", sonhadora, com certeza me conduziu e continua conduzindo a minha vida.
" Uno se despide insensiblemente
de pequeñas cosas
lo mismo que un árbol
que en tiempos de outoño
se queda sin hojas.
Al fin la tristeza
es la muerte lenta
de las simples cosas
esas cosas simples
que quedan doliendo
en el corazón...
Uno vuelve siempre
a los viejos sitios
donde amó la vida
y entonces comprende
como están de ausentes
las cosas queridas.
Por eso
no partas ahora
soñando el regreso
que el amor es simple
ya las cosas simples
las devora el tiempo.
Uno vuelve siempre
a los viejos sitios
donde amó la vida..."
( Tejada Gómes - Canción de las simples cosas )
Eu não saberia para qual ou quais lugares eu retornaria.
Eu amei a vida em tantos lugares!
Em tantos lugares eu fui feliz!
E continuo sendo feliz...
Como escolher para onde voltar?
Faz 32 anos que migrei para o Rio Grande do Sul. Entre idas e vindas acredito que faça uns 25 anos que estou nesta fronteira que me impôs alguns limites e desafios.
Com uma cultura, hábitos e clima diferentes. Um modo peculiar de relacionamentos entre as pessoas.
Isto tudo no início me assustou mas com o tempo me fortaleceu.
O vento minuano ou o pampeiro, estes são excelentes para temperar o corpo e o espírito...
Cada inverno que passo na fronteira eu posso perceber que me sinto mais resistente ao ponto de aprender também a gostar do frio.
Aprendi a apreciar e a gostar dessa natureza tão diferente das paisagens geográficas que eu estava acostumada desde criança.
Eu cresci com os meus olhos apreciando as montanhas e o mar.
Aqui, o verde "mar" das coxilhas ondulantes me recepcionou. Com o tempo fui desvendando as belezas dos campos e descobrindo algumas pequenas elevações rochosas da região, onde o meu espírito de montanhista pode ter um pouco de alegrias.
Este movimento migratório que eu faço há muito tempo me trouxe maior adaptabilidade.
Tornar-se um pouco nômade nos faz ter um olhar mais abrangente e não ter uma opinião antecipada. Ser mais tolerante e receptiva.
É mais ou menos como tirar um véu dos olhos...
Com a natureza posso observar que o essencial e belo está na simplicidade das pequenas coisas.
Mas também fica a certeza, como cantou Márcio Faraco:
" ....nos olhos que me querem é que eu vivo
esta existência efêmera e encantada
um dia hão de extinguir-se, então, mais nada,
nunca mais de um amigo o caloroso abraço.."
Sei que deixei para trás muitos abraços, muitos beijos, muitos carinhos e olhares.
Talvez eu nunca mais possa sentí-los novamente entre os meu braços.
Mas o amor permanece em mim.
Novos olhares, outros abraços, carinhos.
Assim como eu um dia abri minhas asas para fazer o meu movimento migratório, sei que também um dia os meus filhos abrirão as suas asas para voar para longe de mim.
Este ciclo da vida que vamos aprendendo a aceitar.
" A flor do sentimento cresce
breve flor tatuada
no coração....
duradouro inverno,
frágil primavera...
Breve flor tatuada
no coração de quem espera..." ( Márcio Faraco )
Assim vamos atravessando os dias, os meses, os anos.
Alguns passageiros se vão muito rápido, outros ficam por mais tempo ao nosso lado.
Ser migrante, um pouco nômade ou trânsfuga não evita que eu tenha lembranças dos lugares que estive e que ainda vou estar neste nosso lindo planetinha azul. Não me deixa imune às lembranças e saudades.
" Aqui observando o que me sobrou de paisagem
procuro uma certeza ou algo que justifique a vida de uma pessoa nessa cidade imensa.
Queria saber agora o que vale tanto para que possa ser trocado
pela felicidade de um instante de lucidez .
Um instante, uma parada para que eu possa saber onde vou...
qual a direção...
Eu vim do mato, longe, tão longe daqui
já nem sei porque parti.
Mesmo se o tempo apagar o caminho
meu coração me levará sozinho...
Aqui não tenho nada
meu lugar é distante
eu vivo de partida para a tristeza no meu peito
não fazer morada." ( Márcio Faraco )
" Dicen que viajando se fortalece el corazon
Pues andar nuevos caminos
Te hace olvidar el anterior
Ojala que esto pronto suceda
Asi podra descansar mi pena
Hasta la proxima vez." ( Mercedes Sosa )
Fotos de Leniza Vieira Coelho.
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário