segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Memórias

" Memórias vivas são aquelas que continuam presentes no corpo.
  Uma vez lembradas, o corpo ri, chora, comove-se, dança...."
  (Rubem Alves)


Eu em Campinas, São Paulo, 1977.


" O que a memória amou fica eterno."
   (Adélia Prado)




" Os desencontros da vida fizeram com que eu só descobrisse a poesia ao entardecer. Quantos poemas eu não li ! Os poetas põem palavras nos meus sentimentos. Henri Bosco falando sobre sua infãncia diz : " Eu retinha com uma memória imaginária toda infância que ainda não conhecia e que , no entanto, reconhecia ! "
Para se conhecer a alma de uma criança, é preciso abandonar a memória biográfica e entrar na imaginação, aquilo que nunca foi. Como é isso, não reconhecer e, no entanto, re-conhecer? Os poetas sabem que é assim. Na mais bela declaração de amor jamais escrita , Fernando Pessoa diz :

" Quando te vi, amei-te já muito antes.
   Tornei a achar-te quando te encontrei. "

" Sim, meu amor por ti já estava em mim, antes que te conhecesse. Então, eu te conhecia sem o saber ! Agora, que te encontrei, re-conheci o rosto que eu já amava sem saber. Tu, meu amado, já existias em mim desde antes."

Assim são as memórias da infância. Elas são anteriores à infância real. São fantasias felizes. Assim Bosco podia escrever : " No meio de vastas extensões despojadas pelo esquecimento, luzia continuamente essa infância maravilhosa que me parecia ter inventado outrora..."

É preciso esquecer os fatos para que as essências apareçam.

Já falei em outros lugares sobre Angelus Silesius, o místico que escrevia em forma poética. Um dos seus poemas diz assim : " Temos dois olhos. Com um nós vemos as coisas do tempo, efêmeras, que desaparecem. Com o outro nós vemos as coisas da alma, eternas, que permanecem."
Dois olhos, cada um deles tem uma memória diferente. Na memória do primeiro olho estão guardadas, numa infinidade de arquivos, as informações sobre o mundo de fora, coisas que realmente aconteceram. Basta que eu diga o nome da informação desejada para que o arquivo se abra e eu me lembre. É assim que funcionam os computadores. Mas as memórias do segundo olho são diferentes. E isso porque elas moram na alma. E a alma é uma artista. Artistas não aceitam a realidade. Como diz o filósofo Ernst Bloch : " O que é não pode ser verdade."

Imagine um ceramista. Trabalha com a argila. Argila é coisa sem sentido, sem beleza. Aí ele, artista, toma a argila e com suas mãos lhe dá a  forma de beleza  que sua fantasia pede. Pois é isso que faz a alma : ela toma as memórias do primeiro olho como se fosse argila e lhes dá a forma que o coração pede. Por oposição às memórias do primeiro olho, que são exteriores a nós, as memórias do segundo olho são partes de nós mesmos.. Quando as recordamos, o corpo se altera : ele ri, chora, brinca, sente saudades, medo, quer voltar - às vezes para pegar no colo aquela criança amedrontada. E nem sabemos se foi daquele jeito mesmo ou se o recordado é uma fantasia, criada pela alma. Mas, para a alma, isso não importa.

O navio apita seu apito rouco e triste. Ouve-se mais forte o barulho das máquinas. O navio despega-se do cais. Abre-se o espaço entre o cais e o navio, o espaço da ausência. "Todo cais é uma saudade de pedra."
(Álvaro Campos) O navio vai se distanciando . As pessoas com seus lenços brancos vão ficando pequenas . E as vozes , aos poucos, vão se tornando inaudíveis.....
Essa cena está fora do tempo, paralisada. Ela aparece pura e eterna  na memória, como se fosse um belo quadro. Ou um sonho que se repete. E basta que ela seja lembrada para que a alma deseje voltar.
Não é parte de um passado. É sempre presente.

Riobaldo dizia : " Contar é muito dificultoso."
" Não pelos anos que já se passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê, de se remexerem dos lugares. A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos; uns com os outros acho que nem não se misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo coisas de rasa importância. Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras de recente data."

Talvez, então, a melhor coisa seria contar a infância não como um filme em que a vida acontece no tempo, uma coisa depois da outra, na ordem certa, sendo essa conexão que lhe dá sentido, princípio, meio e fim, mas como um álbum de retratos, cada um completo em si mesmo, cada um contendo o sentido inteiro. Talvez seja esse o jeito de se escrever sobre a alma em cuja memória se encontram as coisas eternas, que permanecem....."

( Se eu pudesse viver minha vida novamente - Rubem Alves - editora Versus )

4 comentários:

  1. Miriam, essa sua foto é em Valinhos, na Serra dos Cocais, não é?

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  2. Oi Pedro! Sinceramente não sei lhe dizer. Apenas lembro que fui lá conhecer este "jardim" de boulders e o Observatório Astronômico de Campinas, que fica neste local.
    Abraço!

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  3. Miriam, o título do Rubem me lembrou um poema de jorge Luis Borges (há quem conteste sua autoria), intitulado" Instantes". Vale a pena ler.
    pelo jeito anostalgia tem marcado os últimos tempos pra você...
    mas acho legal reviver os bons tempos; ainda esses dias estive montando um álbum de montanha, oh saudades...
    Belas reflexões! Parabéns!

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  4. Talvez nem tanto a nostalgia mas as boas lembranças que preenchem o coração.Essas lembranças nos ajudam a viver.
    Obrigada pelas visitas Rodrigo.

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