Janeiro de 1987.
Verão. Entardecer quente e céu de um azul maravilhosamente lindo e um crepúsculo coloridíssimo no horizonte. E os meus olhos se perdem na vastidão dos pampas gaúcho. E como um ímã meu olhar é atraído por uma bela elevação rochosa bem diferente do que eu estava acostumada a ver na minha cidade. Por um tempo eu grudei o olhar naquela rocha até sair do meu campo de visão.
Eu estava dentro de um ônibus viajando para o extremo sul do Brasil. Uma fronteira com o Uruguai.
Novidade. Apreensiva, sem saber o que encontraria e se iria me agradar deste novo lugar. Afinal eu estava vindo para morar aqui neste lugar tão distante de minha terra natal, o Rio de Janeiro. Onde cresci e aprendi a admirar e amar as belas montanhas e florestas. E também fazer caminhadas pela serra, escalaminhar montanhas, acampar por variadas cidades serranas e na praia também. Onde o mar era uma extensão de minha vida. Eu costumava "abrir" e "fechar"a praia.....chegava com o nascer do sol e só saía quando a lua alta já brilhava no céu.....nos finais de semana, é claro!
Mas toda essa vida eu deixei por lá. Por lá também ficaram todos os meus familiares, amizades, trabalho, estudos, cultura.
Opções que fazemos no decorrer de nossa existência......
Arrependimentos? Talvez não seja esta a palavra mas uma certa tristeza de precisar fazer escolhas tão doloridas. Isto ou aquilo....não podemos ter tudo nessa vida mesmo....
Uma época de muitas adaptações em minha vida. Uma cultura totalmente diferente da minha.
Tudo ao extremo. Frio extremo, calor extremo, vento extremo, pessoas extremamente diferentes no modo de pensar e se comportar.
Foram muitos anos para tentar me adaptar.
Acho que ainda estou tentando me "encaixar" por aqui......
Voltando para o extremo sul em 1987....
Mas o que em primeiro lugar me chamou atenção nesta planura infinita,como descrevi logo no início, foi uma formação curiosa e muito diferente do que eu estava acostumada a enxergar. Uma elevação em forma de mesa se destacava na paisagem dos pampas e coxilhas arredondadas. Uma rocha bonita, diferente. Me atraiu. Vontade de subir, de ir até lá em cima. Será que tem caminhos, trilhas? Poderei conhecer este lugar?
Poderei eu subir um dia em suas lindas pedras?
Cerro Palomas.
Nem me perguntem mas nem eu saberia dizer o motivo que me fez demorar 24 anos para subir neste morro, ou cerro como dizem aqui.
Mas foi exatamente o que aconteceu.
Já postei algumas fotografias de meus passeios no Cerro Palomas. Mas neste feriadão da Semana Farroupilha , o que eu pude fazer por lá foi muito mais do que apenas caminhar pelo cerro, foi poder escalar aquelas rochas . O que também fazia 1ano e 4meses que eu não praticava.
Esquecida de muitos procedimentos, cautelosa para não fazer coisas erradas e que pudessem colocar em risco meu companheiro de escalada ou mesmo a minha segurança. Tenho tudo por aprender ainda. Ficar mais antenada pois sou bem distraidinha e isso é imperdoável em um esporte como a escalada.
A escalada para mim é um desafio e um grande prazer.
E nesse feriadão pude então voltar a sentir o prazer de estar realizando algo que me proporciona tantos desafios e ao mesmo tempo felicidade de estar agarradinha nas pedras procurando os melhores lugares para apoiar os pés, as agarras, decidir como posicionar o corpo, alisar a rocha com as mãos e perceber as qualidades que ela tem, as cores, o que encontro pelo caminho. Enfim, um diálogo entre eu e a rocha. Uma troca onde eu tenho muito a aprender e respeitar. Muito cautelosa, poderia dizer até lenta demais! Pobre do meu companheiro na segurança.....demoro a subir.....
Mas antes de começar a subir, internamente peço licença para escalar.
Subindo lenta e cautelosamente as pedrinhas do cerro Palomas.
Quase no final da via.
Anoitecendo.
Edson inaugurando vias no Cerro Palomas.
Passados todos esses anos penso que encontrei algo que se parece comigo aqui nos pampas.
Uma bonita formação rochosa que irá ajudar a me sentir mais feliz neste extremo sul do país.
E recordando minha história, posso afirmar com toda a certeza que toda vez que precisei de um consolo, de refletir sobre coisas de minha vida, a natureza e suas manifestações foram sempre as que me acolheram e me devolveram a tranquilidade, calma e silêncio que eu necessitava.
E neste início de nova estação, nessa primavera que chega ensolarada e colorida pelas lindas flores, eu começo uma nova primavera dentro de mim também.
E o que são 24 anos para quem sabe que a vida tem infinitas possibilidades?
Flores de trevo no parque Gran Bretanha no Uruguai.
miriam, esse cerro palomas é mutcho lindo!! qq hora vou pintar aí em livra, podicrê, guria.
ResponderExcluirVenha sim Bea!!!
ResponderExcluirManinha,
ResponderExcluirAdoramos seu texto. A mãe diz: "É como se fosse eu escrevendo."
Bjs
Lilian
A fruta não cai muito longe do pé...hehehe!
ResponderExcluirBeijos, queridas!