domingo, 13 de maio de 2012

Nem montanhista, nem escaladora. Admiradora apenas.

Não sou escaladora.
Nem tampouco posso me considerar montanhista.
Mas já experimentei um pouco das duas realidades.
A primeira foi apenas um ensaio. Uma tentativa de realizar um sonho e desejo de infância, quando eu avistava as montanhas, fosse na cidade do Rio de Janeiro ou Niterói, na Serra dos Órgãos, ou admirando as alturas geladas na Europa.

Eu, ainda bebê no carrinho, subindo por morros ao redor de Niterói, com meus irmãos.

Eu costumava sempre me imaginar caminhando na crista das montanhas ou subindo seus paredões.
Me instigava a curiosidade de menina.
O que eu encontraria lá naquele lugar tão lindo e inacessível para mim?
As belezas das montanhas sempre me cativaram.
Foi nas serras de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo onde pude descobrir minha afinidade com as montanhas.
Não somente o prazer de admirá-las ao longe com sua beleza azulada ou esverdeada, mas o prazer de estar em seu ambiente, em caminhar pelas florestas, em sentir seu perfume de mato fresco, de sentir o frio serrano ou o poder do calor do sol nas alturas.

Minha irmã e eu usufruindo da natureza em Petrópolis.

Eu e a serra de Petrópolis.



Existe um texto que me tocou de maneira especial.
"Escalada, uma ascensão à transcendência".
Vocês podem acessar este endereço e encontrarão o texto a que me refiro.
http://pesquisaemmontanha.wordpress.com/

Ao ler este texto eu me vi diante de sentimentos muito fortes e significativos em minha vida.
Me emocionou por tudo que eu me identifiquei e talvez também por tudo que não vivi com minha própria experiência corporal. Por toda a corporalidade latente que deixou de existir em minha vida. Por ter vivido pela metade meus sonhos e desejos. Talvez por ficar no limiar e vislumbrar o que poderia ter sido.
A oportunidade que não se fez presente.

Li e reli este texto por muitas vezes. E continuo a fazer esta leitura seguidamente.

Interessante que  eu não tenha crescido como uma montanhista, no termo completo da palavra, mas  me parece que tenho o espírito da montanha dentro de mim.
Mas  eu não sei nem sequer caminhar em uma montanha.
Uma avaliação difícil para o meu coração.
Difícil de compreender.
Mas precisei aceitar.
Mas agradeço por saber disso.
Me resignar que realmente para ser uma pessoa da montanha não basta apenas admirá-las,sonhar com elas.
Não basta apenas amá-las.

Caminhada pela Serra dos Órgãos.

É necessário e imprescindível  saber estar em um ambiente, muitas vezes, inóspito, difícil e de riscos reais à nossa integridade física.
Realmente, eu cresci entre as montanhas mas não aprendi a decifrá-las.
Apenas amá-las.
E isso não é o suficiente  para ser uma montanhista.
A  realidade costuma ser cruel para os românticos.
O ambiente de montanha não é para os românticos.
Definitivamente não é.

Na escalada também.
Algumas experiências de escalaminhadas, trepa-pedras, alguns boulders para subir.
Isto não me faz uma escaladora.
Depois , já bem adulta, algumas escaladas com um instrutor.
Ficou a vontade de continuar aprendendo. Subindo nas pedrinhas por aí.

Então o que eu faço com isso?
Eu continuo gostando de estar em ambientes naturais, caminhando dentro de uma floresta, subindo pedras.
Admirar a vida animal e vegetal. Me encantar com as belezas das nuvens, da chuva na floresta, do céu estrelado e dos inúmeros crepúsculos.
Continuarei buscando estar na montanha para pensar melhor sobre as coisas do mundo, me sentir feliz e procurar ser uma pessoa melhor.

Na introdução do texto que comentei aqui, diz assim :
" Uma aventura constitui-se de uma busca pelo desconhecido, uma expedição, uma descoberta de lugares não antes explorados, apontando para a emoção de se enfrentar as incertezas."
E é isto, talvez, que sempre tenha me motivado.
A busca pela aventura, a descoberta, a emoção.
Mas acredito que o maior desconhecido e a maior emoção é me deparar com as minhas emoções e o meu mundo ainda desconhecido.
É a maior aventura que eu posso viver : me enxergar diante de mim mesma.
Como sou verdadeiramente. Minhas fragilidades e limitações.
Descobrir lugares ainda inexplorados de meu interior.
Meus pensamentos.
Acredito que seja isto que as montanhas sempre nos oferecem.

Buscamos desafios fora de nós, mas o maior desafio se descortina internamente a medida que vamos subindo uma montanha.
Muitos já escreveram ou pensaram sobre isto.
Muitos já viveram esta experiência.

"Acreditar num caminho possível é tão importante quanto fazer ajustes, e seguir o desafio depende de se fazer uma autocrítica da própria racionalidade." ( Morin, 2000a )1*
O tempo todo, em ambientes como uma montanha, se utiliza de " percepção, sensação, intuição e razão."1*
Não podemos ter exercício melhor para a vida diária e para o crescimento pessoal do que este, de estar subindo uma montanha.
Assim como na vida das planícies ( cidades ) não é fácil também, por suas características próprias, na montanha também enfrentamos desafios constantemente.
" Trata-se de uma vida em pequena escala, mas com uma diferença fundamental : ao contrário da vida rotineira, na qual em geral é possível corrigir os erros e chegar a algum tipo de acordo que satisfaça todas as partes , nossas ações, mesmo que por momentos brevíssimos, têm consequências seríssimas." (Alvarez,apud Krakauer,1997:79 )1*

Para mim, o montanhismo e a escalada, são um "modus vivendi".**
Onde se aprende a conviver em situações limites.
Uma maneira de olhar e acreditar na vida.
Uma perspectiva diferente de olhar para o mundo e tentar compreender a humanidade.
Eu não faço parte dessa comunidade por motivos óbvios como já escrevi aqui; não sou nem uma coisa nem outra.
Mas independente de ter ou não  a prática e a experiência , vive em mim, em meu coração, esse modo de ser e de estar no mundo.
Quem sabe um dia eu ainda possa retornar a viver nas montanhas que me ajudaram a crescer com tanto apreço, carinho e amor por elas.
Talvez eu volte a olhar novamente o lindo céu estrelado e o pôr de sol na Serra dos Órgãos.

Paisagem do pôr de sol vista da janela de nossa casa na serra.

" Quando o ser humano sai de seu lugar de conforto e se aventura a subir, estabelece uma relação única com as paredes e montanhas, e , seu momento é tão intenso que deixa marcas profundas em si.
...... Só o momento em que o escalador avista tanto horizonte quanto os olhos permitem é que faz sentido."1*

1* http://vomer2.eefd.ufrj.br/~revista/index.php/EEFD/article/view/257/225

**Modus videndi - "É uma espécie de arranjo temporário que possibilita a convivência entre elementos e grupos antagônicos e a restauração do equilíbrio afetado pelo conflito."
Utilizei este termo emprestado da sociologia, para tentar explicar um certo "conflito" que se pode ter ao adentrar em ambientes inóspitos e difíceis como os ambientes de montanha. Onde a convivência com os elementos circundantes nem sempre é tranquila, pois desafia nosso equilíbrio emocional.


3 comentários:

  1. Ótimo texto , Mimi ! Lendo esse post , uma frase me chamou muita atenção : "Buscamos desafios fora de nós, mas o maior desafio se descortina internamente a medida que vamos subindo uma montanha." Ainda sou novo nesse mundo montanhístico , mas é essa mesma sensação que sinto a cada subida .

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    1. Oi Junior,você é bem jovem ainda mas já pode vislumbrar com essas vivências nas montanhas, o como a Vida é repleta de possibilidades e incrivelmente desafiadora e bela!
      Eu lhe desejo muitas experiências gratificantes no maravilhoso mundo das alturas.
      Obrigada pelas visitas ao blog.

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  2. Maninha,
    Adoramos o texto e as fotos!
    Que saudade!
    Bjs
    da mãe e da Lili

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