terça-feira, 19 de novembro de 2013

Mansidão das árvores

 O SERMÃO DAS ÁRVORES

 " Relata-se que São Francisco pregava aos peixes e às aves. Se a lenda é verdadeira imagino que os peixes e as aves, ouvindo a pregação do santo, riam e sorriam discretamente para não ofendê-lo. E isso porque não se pode pregar a seres perfeitos. Prega-se a seres imperfeitos para que eles se tornem perfeitos. Acontece que peixes e aves são perfeitos, são felizes naquilo que são.

Peixes não querem ser aves. Aves não querem ser peixes. Mangueiras não pensam jabuticabas. Jabuticabeiras não pensam mangas.
Assim é : cada bicho e cada planta estão contentes com o que são. São felizes no que são.
Esse não é o nosso caso. Somos os únicos seres que não estão contentes com o que são. Queremos ser diferentes. Por isso ficamos infelizes.

O certo é que elas, felizes, preguem a nós. As criaturas falam.
Ao olhar para os céus podemos perceber que pelos espaços vazios se pode ouvir a linguagem das estrelas.
 Olhar , fechar a boca e escutar.
Mas nós, cuja loucura está em nos considerarmos superiores, achamos que podemos pregar e ensinar. Parte da nossa estupidez é a incontinência verbal, a constante ejaculação de palavras - quando a verdadeira sabedoria seria fazer silêncio, parar os pensamentos, para ouvir a pregação das estrelas, dos peixes, das aves , das plantas.

Por isso, continua em  mim a suspeita de que as árvores são uma forma mais evoluída de vida que a nossa. Me contestarão dizendo que somos superiores porque pensamos e as árvores não. Pergunto se a capacidade de pensar é sinal de superioridade. O pensamento não surge, precisamente, da nossa doença? Ou como sintoma dela ou como tentativa de cura? Caeiro dizia que " pensar é estar doente dos olhos."
Pensamos porque não estamos felizes com o que somos.
Quando estou feliz meus olhos veem a árvore e descansam nela. Não penso em outras coisas.
Eu e a árvore somos um. Quando estou doente meus olhos veem a árvore mas não descansam nela.
Penso. Meu corpo, no pensamento, vai para um outro lugar. Pensamos porque não estamos felizes onde estamos. Penso para ver se descubro uma forma de ficar simples e calmo como as árvores.


Edson e eu caminhando em um linda floresta no Paraná.

Gosto de caminhar. Caminho olhando para cima e para os lados. Acho estranhas as pessoas que caminham olhando para o chão. Compreendo. Para elas não faz diferença.
Olho para cima e para os lados para ver o céu e as árvores. Tento ouvi-los.
É só olharmos para elas com a cabeça vazia de pensamentos para sermos possuídos por uma imensa tranquilidade.

As árvores sabem que a única razão da sua vida é viver. Vivem para viver. Viver é bom.
Estão felizes onde estão.
Ah! Como as pessoas seriam mais belas e felizes se fossem como as árvores.

Acho que o verdadeiro, sobre São Francisco, não é que ele tenha pregado aos peixes e pássaros.
A verdade é que ele ouviu o sermão das árvores. Por isso ficou tão manso, tão tranquilo. Ele tinha a beleza das árvores. Estava reconciliado com a vida."

(Rubem Alves - O amor que acende a lua)


Sejamos simples e calmos
Como os regatos e as árvores,
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!...

( Alberto Caeiro )

Após passar alguns dias caminhando por lugares tão lindos e repletos de natureza e vida, me deparei com este livro do Rubem, de quem eu admiro tanto o seu jeito simples e belo de escrever.
Compartilho com vocês, leitores desse meu Blog.  Acredito que todos aqueles que se alegram em estar na natureza vão compreender as belas palavras desse texto.

"Nem cristão, nem judeu, nem muçulmano, nem hindu, nem budista, nem sufi, nem zen. De nenhuma religião ou tradição cultural. Não sou do oriente e nem do ocidente...não surgi do mar nem da terra, nem natural nem etéreo, nem composto por nenhum dos elementos. Não existo, não sou uma entidade deste mundo nem do seguinte. Meu lugar não tem endereço, nem corpo, nem alma. Pertenço ao Único, vi que os dois mundos são um só e esse único vi e conheço. Primeiro, último. Exterior, interior. Apenas esse alimento que respira existência humana... "
 ( Rumi.)






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