Por Jacques Marcovitch
" A galeria dos heróis da humanidade está repleta de políticos e de soldados. Tem sido a guerra, e não a paz, uma grande fonte de mitos que alimentam o orgulho das nações. Revoluções e conflitos militares, mesmo tendo ideais de justiça como fundamentos, foram os palcos da mitificação. Cresceram neles personagens que tiveram origem no universo da violência, usada como forma de ataque ou defesa de escolhas políticas.
Já houve até, no processo de grandes insurreições transformadoras, o terror legitimado pelo poder do Estado - e não pode haver instrumento mais odioso de terrorismo. É triste que alguns dos líderes desses eventos tenham passado à história como heróis e assim permanecido na mitologização em que se transformou boa parte da memória social.
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Aqui tratamos de outra espécie de grande homem. Não houvesse motivos especiais para este livro - e há muitos - , um deles precisa ser de imediato sublinhado: celebramos um herói não vinculado às noções de conquista. Estamos homenageando um herói da paz. Anti-herói? Melhor dizermos herói-mártir, que não manchou as mãos com sangue dos outros, mas do seu próprio corpo, naquele fatídico 19 de agosto de 2003, em Bagdá.
Mostra-se neste livro o papel do indivíduo na história coletiva, sem que tivesse ele vínculos de ordem militar ou qualquer subordinação a interesses de um determinado Estado.
Como definir os sentimentos que guiaram os seus passos na vida? Podemos, nesse aspecto, invocar o exemplo de Hannah Arendt. Ela assumiu em sua existência, uma atitude geral que chamou de amor mundi.
Cabe aqui dizer que o mesmo raciocínio induz a concepção deste livro, que tem o pensamento de Sérgio como foco central. Até porque foi sobretudo "por amor ao mundo" que ele pensou, agiu e morreu."
Sérgio jamais liderou missões de combate, e os resultados que buscava, e alcançou, tiveram sempre como princípios a paz e a reconstrução.
Sérgio Vieira de Mello sacrificou-se por uma causa de todos os povos.
"Sérgio Vieira de Mello foi uma rara combinação de homem de pensamento e de homem de ação.
Foi a sua existência que definiu a sua essência como homem de pensamento e de ação. Essa existência foi um projeto que ele viveu com coragem, que é , como diz Bobbio, uma "virtude forte", indispensável para quem, como ele , ingressou no espaço público e se dedicou à civitas máxima do sistema internacional.
A palavra coragem provém do francês que, por sua vez , a hauriu do latim cor ( coração ) com o sufixo age , um aumentativo de reforço. Montesquieu a define como o sentimento de suas próprias forças. Trata-se de uma firmeza de espírito e é a ela que alude Cícero quando discute a fortitudo como uma virtude que consiste em enfrentar os perigos e suportar os trabalhos. Sérgio tinha esta fortitudo e é esta virtude o tema unificador de sua vida como homem de pensamento e de ação."
( Por Celso Lafer )
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Conforme Santo Agostinho, é no íntimo de cada um que habita a verdade. Nada é mais solitário do que o diálogo interno do pensar; e no entanto, como afirmava Hannah Arendt, este é o melhor estímulo para que alguém busque o entendimento e a comunicação.
O diálogo, mais do que a iniciativa política, é doação ética. Por meio dele uma parte recebe de outra o fruto da meditação solitária e inteligente. É desta forma que se impede a ressurreição da barbárie e materializa-se o ideal da alteridade. Os outros podem ser o inferno de cada um, como queria Sartre? Sim, mas os outros também podem representar, no intercâmbio de opiniões e ideias, fontes inesgotáveis de valores. A construção de pontes interculturais foi uma consequência pouco visível no trabalho deste grande ator da contemporaneidade. No momento em que personalidades mundiais optaram pelo confronto, ele escolheu a força positiva do diálogo. Desprezou a cultura do medo e do susto, do contra, antiisso ou do antiaquilo, da negação e da discórdia. Desmistificou, mesmo sem querer, a ideia de que o combate armado é a única via para a afirmação dos heróis.
Este brasileiro tão preocupado com a consciência do mundo acreditou na força das ideias, da palavra e do convencimento, excluída qualquer medição de poderes. O seu grande instrumento de trabalho, em todos os momentos, foi a interlocução construtiva e harmoniosa.
Sobre este aspecto , lembremos o que escreveu Norberto Bobbio : " O objetivo do diálogo não é demonstrar quem é o melhor, mas chegar a um acordo ou , pelo menos clarear as ideias de ambas as partes."
Nem sempre indivíduos que falam uns com os outros falam de fato entre si , mas frequentemente para a plateia que os escuta. Dois monólogos , evidentemente, não fazem um diálogo. E não basta ao diálogo ficar no plano dos bons propósitos. Sérgio Vieira de Mello, sem abrir mão do pensamento filosófico e avesso à retórica exibicionista, deixou uma reputação de conquistador de resultados em todas as missões, integralmente cumpridas enquanto viveu."
Livro que recomendo a leitura.
Sérgio Vieira de Mello em ação.
Pensando sobre a data que se aproxima, o Natal, imaginei se nossos sonhos de paz e felicidade serão um dia realidade em nosso planeta. Impossível não devanear sobre este tema.
Sentada, na poltrona da sala da minha casa, olhei para a estante de livros e o livro que me chama a atenção é justamente um que dei de presente para o meu filho, e que trata do tema onde viajava o meu pensamento a poucos minutos atrás : paz.
Já havia iniciado a leitura em outro momento mas nem lembro o motivo que a interrompi.
Apropriado para o momento ele volta a me chamar.
Admiro essa pessoa, O Sérgio Vieira de Mello.
Vocês poderão entender os motivos neste pequeno trecho que aqui deixei.
Mais do que necessário, um sonho de paz paira no imaginário da humanidade.
Um sonho de paz também é alimentado em meu coração.
Seremos merecedores desta paz que pode vir através do diálogo?
Sérgio acreditava nela, trabalhou por ela e muito conseguiu.
Nós, verdadeiramente, fazemos algo ou apenas sonhamos utopicamente?
Fica aqui este post de final de ano para que possamos , pelo menos um pouco, travar este diálogo interno do pensar e que resulta no agir.
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