sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Balançando nas lembranças

 
 
Vovó Moça balançava com suavidade a cadeira de balanço.
Eu, em seu colo, segurava suas mãos que firmes e amorosas me mantinham acolhida entre seus braços.
Netinha, esta cadeira é tua - dizia ela para mim enquanto me embalava.
 
Vovó um dia se foi.
Lembro da sala da casa; alguns parentes conversando baixinho.
O corpo quieto, deitado dentro de uma caixa grande de madeira.
Eu andava pela sala entre as pessoas grandes.
Com apenas cinco anos todos eram muito grandes para mim.
Minha mãe disse: vovó se foi.
Para mim, ela apenas dormia.
 
A cadeira trocou de endereço.
Agora era minha mãe que ao sentar  e  se embalar dizia:
 
_ Minha filha, lembra, esta cadeira é tua. Herança da vovó. Quando tu crescer  levará para tua casa e lá você embalará o sono de teus filhos. Também irá amamenta-los no balanço desta cadeira.
Quando fores adulta  poderás meditar sobre tua vida. Sentarás nela e recordarás teus dias, as sementes que plantou, os frutos que colheu, os projetos que realizou. Das alegrias e tristezas que fazem parte da vida de todos nós.
Terás todo o tempo do mundo para meditar.
 
Hoje continuo a me embalar.
Desde pequena ela me acompanha.
Balançando minhas lembranças posso recordar minha vó Moça, minha mãe, meu pai, a Didi.
Todos os queridos que aqui já não estão mais.
Minha família que está longe.
 
Meus filhos já estão crescidos. Estão caminhando por seus próprios pés e fazendo as escolhas deles.
Levam em suas lembranças o meu carinho. As cantigas que os embalaram enquanto, com amor, eu os amamentava.
Nesta cadeira muitas lembranças e vivências de família se misturam.
As mulheres da família têm de certo modo suas histórias na trama de palha desta cadeira.
 
E hoje, em minha casa sozinha nesta noite, eu tenho todo o tempo do mundo.
Todo o tempo para balançar em lindas lembranças.
Recordar  com alegria  meus dias desde pequena, minhas pequenas aventuras, o amor e as pessoas que amo.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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