" Como era que eu não tinha visto antes toda essa riqueza? Era o meu sangue. Eram as minhas vivências diretas ou indiretas, que por tanto tempo eu renegara." (Erico Veríssimo)
Cerro Palomas. Crédito da imagem: Edson Du Bois Struminski.
Desde muito pequena, bebê ainda, que tenho raízes no sul.
Minha mãe foi responsável pela minha conexão afetiva e sanguínea com o território sulino.
Aliás, desde muito antes, com os meus antepassados.
Minha mãe nasceu em Passo Fundo. Esta cidade teve sua formação a partir de 1827, como resultado da ocupação do planalto médio e o Alto Uruguai. Leva esse nome em razão de um rio de mesma denominação utilizado pelos tropeiros desde o século XVIII.
Tenho na memória o som do trem apitando ao chegar na estação em Passo Fundo. Também recordo do barulho de meus passos ligeiros sobre o chão de madeira, da casa da minha bisavó, ao correr para a janela e nas pontas dos pés me espichar para ver o trem passar.
Minha mãe tem antepassados charruas.
Os charruas eram índios que habitaram nos campos dos territórios atuais do Uruguai, do nordeste da Argentina e do sul do Rio Grande do Sul. Localizaram-se na coxilha de Haedo, localizada no sudoeste do Rio Grande do Sul. Em 1730 se aliaram aos Minuanos, que vinham de além do rio Uruguai.
Os charruas são considerados desaparecidos como tribo, sem nunca terem sido catequizados ou civilizados. Os uruguaios de hoje orgulham-se da ascendência charrua, que lhes teria fornecido seu caráter indômito.
Existem hoje cerca de 6 mil charruas nos países que compõem o Mercosul. Só no Rio Grande do Sul, são mais de 400 índios presentes nas localidades de Santo Ângelo, São Miguel das Missões e Porto Alegre.
Imagem no mapa do Uruguai a localização da coxilha de Haedo.
Muito interessante observar que esta região da coxilha é a mesma região onde eu acabei vindo morar. Coincidência ou destino? Não sei como interpretar este fato em minha vida. Saí do Rio de Janeiro e vim fincar morada nesta fronteira onde uma parte dos meus antepassados aqui estiveram. E assim, lendo "O Tempo e o Vento", de Erico Veríssimo, me reporto ao passado destas terras e consequentemente ao meu passado longínquo.
O inverno faz dessas coisas; sentimento que naturalmente o recolhimento nos faz vivenciar.
O frio lá fora, o vento minuano soprando e quase como um uivo, nos faz rememorar lembranças que nem sempre saberemos serem nossas ou dos que por aqui viveram há muitos anos atrás.
Foi exatamente isso que senti ao ler este maravilhoso épico.
Transcrevo um artigo de Alcy Cheuiche, do jornal Zero Hora:
Muito interessante observar que esta região da coxilha é a mesma região onde eu acabei vindo morar. Coincidência ou destino? Não sei como interpretar este fato em minha vida. Saí do Rio de Janeiro e vim fincar morada nesta fronteira onde uma parte dos meus antepassados aqui estiveram. E assim, lendo "O Tempo e o Vento", de Erico Veríssimo, me reporto ao passado destas terras e consequentemente ao meu passado longínquo.
O inverno faz dessas coisas; sentimento que naturalmente o recolhimento nos faz vivenciar.
O frio lá fora, o vento minuano soprando e quase como um uivo, nos faz rememorar lembranças que nem sempre saberemos serem nossas ou dos que por aqui viveram há muitos anos atrás.
Foi exatamente isso que senti ao ler este maravilhoso épico.
Transcrevo um artigo de Alcy Cheuiche, do jornal Zero Hora:
Ana Terra, a mulher telúrica.
"É a futura mãe de todos os gaúchos, ainda jovem. ainda virgem, que sente no corpo o pulsar da primavera.
As mulheres, de Erico, são apresentadas como que refratadas pela ambivalência em que se movem.
"Sempre que me acontece alguma coisa importante está ventando, costumava dizer Ana Terra. Mas entre todos os dias ventosos de sua vida, um havia que lhe ficara para sempre na memória, pois o que sucedera nele tivera a força de mudar-lhe a sorte por completo. Devia ter sido em 1777: ela se lembrava bem porque este fora o ano da expulsão dos castelhanos do território do Continente. Mas na estância onde Ana vivia com os pais e os dois irmãos, ninguém sabia ler, e naquele fim de mundo não existia calendário nem relógio. Eles guardavam na memória os dias da semana; viam as horas pela posição do sol; calculavam as passagem dos meses pelas fases da Lua; e era o cheiro do ar, o aspecto das árvores e a temperatura que lhes diziam as estações do ano. Ana Terra podia jurar que aquilo acontecera na primavera, porque o vento andava bem doido, empurrando grandes nuvens brancas no céu, os pessegueiros estavam floridos e as árvores que o inverno despira, se enchiam outra vez de brotos verdes."
Nessa descrição da terra sulina, o escritor nos revela a imensa solidão de Ana. É a futura mãe de todos os gaúchos, ainda jovem, ainda virgem, que sente no corpo o pulsar da primavera.
Caminha em direção à sanga, equilibrando sobre a cabeça uma cesta de roupa suja. No pensamento, sonha em partir para um local mais povoado.
Mas seu destino a espera a poucos passos dali:
" Um homem caído de borco, os braços abertos em cruz, a mão esquerda mergulhada na sanga."
Ana tenta recuar, mas é tarde. Ela é o símbolo da mulher que irá povoar aquelas terras imensas. É um elo da nossa miscigenação que começa a se plasmar. Ao entregá-la a Pedro Missioneiro, o escritor exige respeito ao nosso sangue indígena. E o faz também em causa própria.
Assim, Ana Terra, neta de um paulista, passa a ser a mais importante ancestral da família imaginária. Ana vai unir em seu filho Pedro Terra duas das vertentes que mais honram a nossa formação histórica: a dos tropeiros brancos, negros, cafuzos e mulatos de Sorocaba e Laguna, e a dos índios, nossos primeiros povoadores.
O erotismo xucro da paixão de Ana Terra por Pedro Missioneiro é de uma pureza natural, telúrica, descrito para revelar o drama de todas as mulheres prisioneiras da solidão:
" Ana estava inquieta. No fundo, ela bem sabia o que era, mas envergonhava-se de seus sentimentos. Queria pensar noutra coisa, mas não conseguia. E o pior é que sentia os bicos dos seios ( só o contato com o vestido dava-lhe arrepios) e o sexo como três pontos ardentes. Sabia o que aquilo significava. Ficava pensando em como seria de ser abraçada, beijada, penetrada por um homem."
Arrastada à sanga pelo desejo carnal, mas também pela música da flauta de Pedro, Ana "sente nas solas dos pés a terra morna do chão". Mais uma vez Erico, que escreveu esta narrativa numa época de muitos preconceitos, mesmo sem usar metáforas, transforma o ato de entrega numa cena quase mitológica. Ana ganha a energia da terra através dos pés descalços. Ela cumpre o seu destino.
Pedro também. Assassinado pelos irmãos de Ana e enterrado perto de uma árvore, é demasiado tarde para ele, símbolo dos índios guaranis, fugir ao extermínio do seu povo.
Mas é apenas o alvorecer para o filho que vive no corpo de Ana Terra.
Um mestiço de branco, negro e índio destinado a levar seu sangue e o de seus algozes através dos séculos.
Ana representa a gênese da terra e da mulher gaúcha.
Ana Terra é uma mulher apaixonante que vem povoando os sonhos eróticos de várias gerações. Ela fez parte da minha adolescência."
Ana Terra podíamos ser cada uma de nós.
Minha mãe, que levava o sangue charrua e uma personalidade indômita.
Ou eu, que tenho o sul tão presente dentro de mim, que fez parte do meu imaginário adolescente e que ainda hoje me faz sentir o minuano, em meus cabelos e na minha pele, ao apreciar este vasto território onde meus antepassados por aqui viveram e guerrearam.
Lembro-me, sentada à beira da praia desfrutando com prazer o vento sudoeste que agitava o mar e o transformava em um dia cinza frio.
Pensamentos soltos pelo forte vento, talvez ali eu estivesse antevendo o meu futuro em coxilhas verdes e menos agitadas....
Pampa gaúcho. Região de Santana do Livramento.
Crédito da Imagem: Miriam Chaudon.
Música : https://www.youtube.com/watch?v=U5IailIzqdc



como sempre, um belo texto, escrito com tua usua sensibilidade
ResponderExcluirEsse frio pampeano e o vento minuano nos deixa acentuada a sensibilidade, minha amiga querida.
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