"Vivia perplexo diante do Uruguai, não propriamente diante do mundo; mas, antes, diante daquele outro mundo: tão perto e tão longe, logo ali do outro lado...muy cerca, cerquita...
Aquele outro mundo, tão diferente e tão igual."
( Aldyr garcia Schlee)
Faz mais tempo que estou na fronteira do que no litoral. Não imaginei que esse tempo fosse chegar.
Nascida e cultivada com as peculiaridades do litoral carioca precisei me aclimatar na fronteira sob diversos aspectos.
No início os anos não foram muito fáceis.
Mas depois o tempo se encarregou de aplainar as rugas e secar algumas lágrimas. Nem todas ele secou.
Assim como acalmou minhas intempéries também me abriu os olhos para a bela planura dos campos do sul. Suas cores, a suavidade de suas coxilhas, o som único do vento minuano.
Foram anos de descobertas de novos sabores, clima, paisagens, sonoridades, fisionomias.
Se eu precisar me encontrar em um mapa, eu não saberia dizer onde. Qual é o meu rincão? Onde se encontra a minha querência?
Minha mãe sempre dizia que eu era a filha trânsfuga; aquela que abandonou o seu lugar. Pensar nisso me deixa triste.
Talvez não seja por um acaso do destino eu vir parar nesta fronteira onde tantos significados geográficos e culturais são suscitados.
Nem daqui e nem de lá. Não pertenço inteiramente a nenhum desses espaços geográficos. Onde me sinto acolhida então?
Os meus afetos estão espalhados como sementes de flor.
Este sentimento de impermanência é um desafio que a vida impõe para observarmos sua fluidez. Na realidade nada nos pertence e não pertencemos a lugar nenhum.
Na fronteira pode-se sentir muito claro este viver errante; vivenciar esta palavra de muitos significados e interpretações.
Podemos olhar para os seus limites burocráticos e físicos ou escolher a fronteira como um espaço aberto para infinitas possibilidades para a vida florescer...assim como nos campos.
Nesta hora do crepúsculo, sentada no alto de uma coxilha, o céu é um convite ao encantamento do olhar. Tons róseos alaranjados pintam nuvens suavemente. Os sons do campo ficam mais silenciosos. Agora, o anoitecer mostra uma calma diferente. No céu já posso ver os primeiros brilhos de uma estrela e lá distante a cidade parece almejar ter brilho igual a ti.
Mas como explicar às pessoas essa pequena tristeza quando estou a lembrar de onde vim? Uma certa angústia, um aperto no peito por não saber para onde vou.
Mas logo respiro e volto o meu olhar para esta paisagem que se faz tão linda. A vida oferece tanta beleza! Seria uma ingratidão não reconhecer este presente que estou vivendo.
Talvez o mais importante não seja onde eu esteja mas como eu estou vivendo esses momentos, não importa em qual lugar deste planeta. A fronteira, esse viver fronteiriço, tem me ensinado que podemos viver sem nos limitar; dar asas ao pensamento e à imaginação.
" Os pássaros cruzam de um lado para o outro, muitos comem no Uruguai e à noite os bandos vão para o outro lado do rio e ali dormem. Essas aves não têm identidade, as aduanas não as detêm, nem as bandeiras, nem têm fronteiras." ( Fabian Severo)
"Talvez um dia todos nós sejamos a própria fronteira de um só continente, onde não seja preciso passar por aduanas para abraçar uma mãe ou responder interrogatórios para beijar um irmão, onde sonhemos uma só poesia." (Fabian Severo)
"Acho lícito pensar a fronteira como uma entidade mítica, tal qual a caatinga de Graciliano Ramos, o sertão de Guimarães Rosa e o pampa de Simões Lopes Neto." ( Carmem. M. Serralta )
*As fotografias: Cerro do Loro no Uruguay; pássaros migrando no céu da fronteira; cerca na fronteira Brasil - Uruguay. Todas as fotos possuem direito autoral . Créditos de Miriam Chaudon.
*Trechos dos autores citados são da publicação : Revista VOZ - ano 4 / nº 7 / 2014
*Trechos dos autores citados são da publicação : Revista VOZ - ano 4 / nº 7 / 2014



Perfeito! Minha vivência atual no interior do PR compartilha as mesmas reflexões e sentimentos... :)
ResponderExcluirInteressante, Andrey!
ExcluirManinha: Somos todos passageiros, em todos os sentidos. Boas e belas reflexões.
ResponderExcluirAproveito para antecipar meus melhores sentimentos por seu aniversário, amanhã. Beijos!!!
Verdade, meu irmão querido! Chegar e partir...como a música "Encontros e despedidas" que o Milton canta e nos lembra que somos apenas passageiros. Muito obrigada pelos votos aniversariantes. Beijos!
Excluirinspiradíssimo teu texto, Miriam querida!
ResponderExcluirTenho saudade de você, amiga!
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