" Escreve-se (...) ou para não estar só, ou para não deixar só." (Andrée Crablé Rocha)
Foto: Sertão da Bahia - Itatim
Já foram algumas idas e vindas ao nordeste com o meu querido companheiro Edson.
Pensava que não iria conhecer este torrão do país. Mas chegou o dia de conhecer, ao lado dele, um pouco dessas regiões áridas, quentes e tão diferentes de tudo o que eu até então estava acostumada a vivenciar.
" Tenha certeza de que não porei aqui, seja para embelezar ou enfeiar, mais do que aquilo que vi e me pareceu." Assim escreveu Pero Vaz de Caminha, o escrivão da esquadra de Pedro Álvarez Cabral, em princípio de maio de 1500. O "achamento" da "Terra de Vera Cruz", o Brasil.
Conhecer o nordeste tem sido para mim também uma espécie de "achamento".
Muito sulista que sou, embora nascida no Rio de Janeiro, o sul me compõe fortemente. São os extremos do país que venho a conhecer; os rigores do inverno sulino e o inclemente sol do nordeste que castiga o solo, a pele e a alma também.
O nordeste não possui em sua geografia grandes elevações no litoral, como a Serra do Mar. Mas a Serra do Mar não deve ser mais a grande "muralha" verde a ser transposta como há muito tempo serviu de obstáculo e dificuldade para os desbravadores. Assim como a Floresta Atlântica não mais existe para servir de aventura ou encantamento em nossas viagens. Poucos são os avistamentos de um pequeno vestígio aqui ou ali de uma remanescente e exuberante Floresta Atlântica que em 1500 pôde ser apreciada e muito cobiçada.
Nostalgia de algo que não conheci...
Foto: Serra da Nascéia - Boca da Mata em Alagoas.
" Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões, mais de dois milhões de índios, e mais de quinhentas povoações como grandes cidades, e disto nunca se viu castigo." Quem assim, indignado, escreve ao rei de Portugal D. Afonso VI, em abril de 1657 é o Padre Antonio Vieira.
Com o rosto voltado para as paisagens na janela do carro, o que os meus olhos buscam são por pequenas "ilhas" verdes que possam amenizar a carência de diversidade paisagística. Ou quem sabe por pequenos povoados que ainda resistem, com idade aproximada de uns 200 anos, em algumas serras do interior. Lugares com histórias de pessoas especiais que nos surpreendem com sua vida simples.
Foto: Na estrada para o Rio São Francisco - Alagoas.
A cana-de-açúcar está por todos os lados. Outro visual constante pelo litoral são os coqueirais. Essa monotonia em parte me agride.
A maioria das paisagens se resumem em cana e coco. A vida é tão diversa! Como conseguiram alterar tanto assim com o ambiente a ponto de fazer com que nossos olhos implorem sedentos por pequenos vestígios de alguma natureza intocada...
No interior, avista-se pasto para gado e para os bodes; também plantam muitas palmas. Uma espécie de cactus que alimenta o gado em época em que o pasto está ralo pela falta de chuva.
Com um olhar curioso e paciente pode-se ver belezas que valem a pena um registro fotográfico. No interior ainda existem alguns "oásis" de vegetação com rios e cachoeiras.
Nas estradas de terra onde nos arriscamos e nos embrenhamos, encontramos pessoas simples, de sorriso largo. Nos oferecem a sua riqueza em frutas, água e principalmente em hospitalidade.
Pequenos povoados com casas singelas e pessoas vivendo do que plantam ou trabalhando na colheita da cana.
Foto: Moradia típica do interior nordestino. Boca da Mata - Alagoas. Crédito de Edson Struminski.
E o que dizer do rio São Francisco? Um rio com tantas lendas e histórias!
Avistar o São Francisco no meio do sertão e da caatinga é uma benção. Conhecendo um pouco das populações ribeirinhas compreendemos o quanto essas águas são o "ouro" do nordeste.
Seus cânions encantadoramente exuberantes em cores, texturas e formas de suas rochas nos deixam tão humildes e pequenos ao apreciar suas belezas.
Suas águas verdes....
e a foz onde " o rio vai bater na beira do mar..." (Luiz Gonzaga)
Foto: Cânions do Xingó no rio São Francisco- Alagoas e Sergipe.
Gostaria de remar em suas verdes águas novamente e ficar apenas silenciosamente na paz da natureza.
Foto: Foz do rio São Francisco em Piaçabuçu.
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
....amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens." ( João Guimarães Rosa )
Foto: Rio São Francisco na cidade de Penedo em Alagoas.
Título: *Revista Mosaico, v.1, n.2, p.178-187, jul./dez., 2008 (Sebastião Rios*
Carolina Santos*)





Inspirada matéria! Beleza!
ResponderExcluirObrigada, meu irmão.
Excluirmuito legal!!
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